Infecções graves nem sempre são causadas por bactérias ou vírus. Pouca gente imagina que fungos silenciosos podem provocar doenças potencialmente fatais, muitas vezes resistentes a medicamentos e difíceis de tratar. Eles estão por toda parte, no ar, no solo e até no próprio corpo, esperando a menor brecha para atacar, especialmente pessoas com imunidade baixa.
O problema é que, quando esses fungos se tornam invasivos, os tratamentos disponíveis são limitados. Diferente das infecções bacterianas, que têm ampla gama de antibióticos, os fungos patogênicos contam com poucas opções, muitas vezes tóxicas ou pouco eficazes. Isso faz com que infecções graves avancem rápido, elevando risco de complicações e morte.
Por que os fungos são tão resistentes?
Os fungos compartilham semelhanças com células humanas, o que dificulta criar medicamentos que ataquem o invasor sem prejudicar o corpo. Por isso, tratamentos clássicos podem causar efeitos colaterais sérios e nem sempre funcionam.
Alguns fungos representam ameaças específicas à saúde:
- Cryptococcus neoformans pode causar meningite criptocócica, uma infecção grave do cérebro, e doenças respiratórias semelhantes à pneumonia, principalmente em pessoas com imunidade baixa, como pacientes com HIV ou câncer.
- Candida auris provoca infecções sanguíneas graves (candidemia) e feridas resistentes a tratamento, com risco de falência de órgãos em casos sistêmicos.
- Aspergillus fumigatus pode desencadear aspergilose pulmonar, que varia de sintomas leves a infecções graves nos pulmões e outros órgãos, especialmente em pessoas com imunidade comprometida.
Essas infecções podem ser letais, e a resistência crescente aos medicamentos clássicos torna o cenário ainda mais preocupante.
O ponto fraco dos fungos

Pesquisadores da Universidade McMaster descobriram que mesmo os fungos mais perigosos não são invencíveis. Uma molécula chamada butirolactol A, conhecida há décadas mas negligenciada, consegue desarmar um sistema interno essencial do fungo. Esse sistema, chamado flipase, mantém a célula organizada e protegida contra ataques externos.
Quando o butirolactol A bloqueia a flipase, é como se o fungo perdesse sua armadura invisível. Sem essa proteção, os medicamentos antifúngicos tradicionais passam a ser eficazes novamente, eliminando fungos que antes resistiam aos tratamentos. Essa abordagem não mata o fungo diretamente, mas o deixa vulnerável, permitindo que os remédios façam seu trabalho com mais eficiência.
Experimentos mostraram que o efeito da molécula é semelhante em Cryptococcus, Candida auris e Aspergillus fumigatus, o que indica potencial amplo para tratar infecções graves e resistentes (Chen et al., Cell, 2025; DOI: 10.1016/j.cell.2025.11.036).
Benefício direto para pacientes
Essa descoberta pode transformar o cenário de infecções fúngicas graves. Pacientes que antes tinham poucas opções agora têm mais chances de recuperação, especialmente aqueles com imunidade comprometida. Para hospitais, isso significa melhor controle de infecções oportunistas, redução de internações prolongadas e menos risco de complicações fatais.
Mesmo assim, especialistas alertam que diagnóstico precoce, acompanhamento médico e uso correto dos medicamentos continuam sendo essenciais. O que muda é a perspectiva: fungos antes quase invencíveis agora têm um ponto fraco que pode ser explorado para salvar vidas.

