Fumar afeta o cérebro e eleva risco de depressão, revela pesquisa

Tabagismo afeta o equilíbrio emocional ao longo da vida. (Foto: Adrian's Images via Canva)
Tabagismo afeta o equilíbrio emocional ao longo da vida. (Foto: Adrian's Images via Canva)

Muita gente recorre ao cigarro como uma pausa emocional. Ele aparece em momentos de estresse, ansiedade ou cansaço mental, quase como uma tentativa de reorganizar os pensamentos. No início, a sensação pode ser de alívio. Com o tempo, porém, surgem sinais menos óbvios: desânimo persistente, irritabilidade, dificuldade de concentração e perda de interesse por atividades simples. Nem sempre esses sintomas são associados ao cigarro, mas a ligação existe e passa diretamente pelo cérebro.

O tabagismo não age apenas como um hábito. Ele interfere nos sistemas que regulam o humor e o equilíbrio emocional.

O que a nicotina faz com os circuitos do humor

Ao entrar no organismo, a nicotina estimula áreas cerebrais ligadas à recompensa, provocando uma liberação rápida de dopamina. Esse efeito é breve e instável, levando o cérebro a buscar novas doses para manter a mesma sensação. Com o uso contínuo, ocorre uma adaptação química que altera o funcionamento normal dessas redes.

Esse desequilíbrio torna o cérebro mais sensível ao estresse e às oscilações emocionais, criando um terreno favorável ao desenvolvimento de sintomas depressivos, especialmente nos períodos sem nicotina.

Quanto mais se fuma, maior o impacto emocional

Nicotina interfere nos circuitos cerebrais do humor. (Foto: Getty Images via Canva)
Nicotina interfere nos circuitos cerebrais do humor. (Foto: Getty Images via Canva)

A relação entre cigarro e depressão não é apenas qualitativa, mas também quantitativa. Análises populacionais mostraram que o aumento no número de cigarros fumados por dia está diretamente associado ao agravamento dos sintomas depressivos. O efeito é cumulativo e progressivo.

Esses dados fazem parte de uma investigação conduzida por Maja P. Völker e colaboradores, que analisou padrões de comportamento e saúde mental em adultos de diferentes faixas etárias, observando como a intensidade do consumo influencia o estado emocional ao longo do tempo.

A idade de início também muda o curso da depressão

Outro aspecto relevante é o momento em que o tabagismo começa. Iniciar o hábito mais tarde tende a adiar o surgimento dos primeiros episódios depressivos, mas não elimina o risco. O cigarro atua como um fator que desloca e acelera processos cerebrais ligados à depressão, em vez de apenas acompanhar pessoas já vulneráveis.

Essa relação temporal foi detalhada no estudo Dos cigarros aos sintomas: a associação entre tabagismo e depressão na Coorte Nacional Alemã (NAKO), que avaliou dados de mais de 170 mil adultos ao longo do tempo.

Parar de fumar exige ajuste do cérebro

Abandonar o cigarro é fundamental para a saúde, mas o cérebro precisa de um período de adaptação. Pessoas que largaram o hábito recentemente ainda apresentam maior risco de sintomas depressivos, pois os sistemas de recompensa e regulação emocional estão se reorganizando.

Com o passar dos meses e anos, esse risco diminui. Quanto maior o tempo sem fumar, maior a estabilidade emocional, indicando uma recuperação gradual do equilíbrio cerebral.

Evidência científica

Os resultados dessa análise foram divulgados em 19 de dezembro de 2025, na revista científica BMC Public Health, reforçando que o tabagismo afeta não apenas o corpo, mas também a saúde mental.

O conjunto das evidências aponta para um alerta claro: fumar não é apenas um comportamento nocivo aos pulmões. Ele altera o funcionamento do cérebro, aumenta a vulnerabilidade emocional e eleva o risco de depressão ao longo da vida.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.