Frio e chuva extremos ameaçam sobrevivência de filhotes de aves, mostra estudo

Frio e chuva extremos afetam crescimento de filhotes de aves (Imagem: Getty Images via Canva)
Frio e chuva extremos afetam crescimento de filhotes de aves (Imagem: Getty Images via Canva)

As mudanças climáticas estão alterando diversos aspectos da vida na Terra e um novo estudo revela que até mesmo os primeiros dias de vida das aves podem ser profundamente afetados. Pesquisadores da Universidade de Oxford analisaram décadas de dados e descobriram que eventos climáticos extremos, como ondas de frio e chuvas intensas, podem prejudicar o crescimento de filhotes de chapim-real (Parus major), uma ave comum na Europa.

A pesquisa, publicada na revista científica Global Change Biology, utilizou um conjunto impressionante de informações acumuladas ao longo de 60 anos de monitoramento na floresta de Wytham, no Reino Unido. Ao todo, foram avaliados dados de mais de 80 mil aves individuais, permitindo compreender como diferentes condições meteorológicas influenciam o desenvolvimento inicial dessas espécies. Entre os principais fatores analisados estavam:

  • Temperaturas extremas, tanto frias quanto quentes;
  • Chuvas intensas durante o crescimento dos filhotes;
  • Momento da reprodução ao longo da primavera.

Os resultados mostram que pequenas variações climáticas no início da vida podem ter impactos significativos na sobrevivência futura das aves.

Os primeiros dias de vida são os mais vulneráveis

Os pesquisadores observaram que o frio intenso durante a primeira semana após a eclosão representa um dos maiores riscos para os filhotes. Nesse estágio, eles ainda não possuem penas suficientes para manter a temperatura corporal.

Consequentemente, grande parte da energia que deveria ser usada para crescimento e desenvolvimento acaba sendo desviada para manter o corpo aquecido. Esse processo reduz a massa corporal quando as aves deixam o ninho, um indicador importante de probabilidade de sobrevivência na natureza.

Além disso, o clima extremo também afeta os pais. Chuvas fortes e temperaturas baixas podem dificultar a busca por alimento, reduzindo o número de insetos disponíveis.

Chuvas intensas reduzem disponibilidade de alimento

Outro fator crítico identificado pelo estudo é o impacto da chuva sobre as lagartas, principal fonte de alimento para os filhotes.

Durante tempestades fortes, esses insetos são frequentemente derrubados da vegetação, tornando-se mais difíceis de encontrar. Como consequência, os filhotes recebem menos alimento em um período de alta demanda energética, o que pode reduzir sua massa corporal em até 3%.

Em situações ainda mais extremas, quando chuvas intensas coincidem com temperaturas elevadas, o impacto pode ser muito maior. Nesses casos, os pesquisadores observaram reduções de até 27% na massa corporal de filhotes que nascem mais tarde na temporada.

Reprodução precoce pode ajudar na sobrevivência

Curiosamente, o estudo revelou que aves que iniciam a reprodução mais cedo na primavera tendem a sofrer menos com os efeitos do clima extremo.

Isso ocorre porque esse período coincide com o pico de abundância de lagartas, garantindo mais alimento para os filhotes. Além disso, as temperaturas costumam permanecer dentro de limites que não prejudicam o crescimento.

Em alguns casos, períodos moderadamente quentes chegaram até a favorecer o desenvolvimento, possivelmente porque aumentam a atividade de insetos e reduzem o gasto energético dos filhotes com termorregulação.

O desafio das aves em um clima cada vez mais instável

Os resultados indicam que eventos climáticos extremos influenciam o desenvolvimento das aves de maneiras complexas. Embora alguns episódios de calor moderado possam trazer benefícios temporários, o aumento na frequência e intensidade desses fenômenos representa um desafio crescente para muitas espécies. 

Por isso, os pesquisadores destacam a importância de monitorar microclimas e habitats naturais, além de adotar estratégias de conservação, como a instalação de caixas-ninho, o manejo adequado de áreas florestais e o acompanhamento contínuo das populações de aves ao longo do tempo. Essas ações podem ajudar a proteger os filhotes em fases críticas de desenvolvimento enquanto o clima global continua passando por mudanças.

*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ).

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes