Fóssil surpreende ao revelar colágeno preservado após a extinção dos dinossauros

Colágeno preservado é encontrado em fóssil de dinossauro. (Foto: Reprodução / Universidade de Liverpool)
Colágeno preservado é encontrado em fóssil de dinossauro. (Foto: Reprodução / Universidade de Liverpool)

Por décadas, a fossilização foi entendida como um processo que eliminava por completo qualquer vestígio de matéria orgânica. Ossos antigos seriam apenas estruturas minerais, sem ligação química direta com o organismo original. 

No entanto, novas evidências científicas indicam que essa visão precisa ser revista. Um estudo recente demonstrou que o colágeno preservado pode permanecer detectável mesmo após a extinção dos dinossauros.

A pesquisa analisou ossos fossilizados de Edmontosaurus, um dos grandes herbívoros que habitaram a Terra no final do período Cretáceo. Os resultados mostram que biomoléculas originais podem sobreviver por milhões de anos sob condições específicas.

O estudo que mudou a interpretação dos fósseis

O trabalho, intitulado “Evidência de colágeno endógeno em osso fóssil de Edmontosaurus”, foi conduzido por Lucien Tuinstra et al. e publicado em 2025 na revista científica Analytical Chemistry. O estudo utilizou métodos químicos de alta precisão para investigar a composição molecular de ossos fósseis atribuídos a esse dinossauro bico-de-pato.

Diferentemente de análises tradicionais, o foco não esteve apenas na estrutura do osso, mas em sua assinatura molecular, buscando indícios inequívocos de proteínas originais preservadas desde antes do evento de extinção em massa.

Como o colágeno antigo foi identificado

Os pesquisadores aplicaram espectrometria de massa avançada, técnica capaz de detectar fragmentos moleculares extremamente degradados. O principal marcador identificado foi a hidroxiprolina, um aminoácido que, nos vertebrados, está diretamente associado ao colágeno ósseo.

Além disso, a análise revelou fragmentos compatíveis com colágeno alfa-1, a forma predominante dessa proteína no tecido ósseo. A combinação desses dados químicos reforça que o material identificado não resulta de contaminação moderna, mas sim de colágeno endógeno degradado, preservado no interior do fóssil.

Por que o Edmontosaurus é tão importante?

Fragmento de sacro de Edmontosaurus analisado no estudo. (Foto: Reprodução / Universidade de Liverpool)
Fragmento de sacro de Edmontosaurus analisado no estudo. (Foto: Reprodução / Universidade de Liverpool)

O Edmontosaurus viveu nos momentos finais da Era dos Dinossauros, compartilhando o ambiente com espécies como Triceratops e Tyrannosaurus. Seus fósseis são comuns na Formação Hell Creek, uma região geológica associada ao limite entre o Cretáceo e o Paleógeno.

As condições ambientais dessa formação, como soterramento rápido e composição mineral específica, podem ter favorecido a preservação molecular, permitindo que fragmentos de proteínas resistissem ao tempo geológico.

Impactos para a ciência e futuras pesquisas

A identificação de colágeno preservado em fósseis de dinossauros representa um avanço significativo para a paleontologia molecular. Entre as principais implicações do estudo estão:

  • Reavaliação de fósseis antigos já presentes em coleções científicas
  • Novas possibilidades para investigar relações evolutivas entre espécies extintas
  • Melhor compreensão dos processos químicos que estabilizam proteínas ao longo do tempo

Além disso, estruturas microscópicas observadas há décadas em ossos fósseis podem agora ser reinterpretadas como potenciais reservatórios de biomoléculas antigas.

Uma nova fronteira no estudo da vida pré-histórica

A confirmação de que o colágeno sobreviveu à extinção dos dinossauros amplia a forma como a ciência acessa o passado profundo da vida na Terra. Mais do que reconstruir esqueletos, os pesquisadores passam a explorar a biologia molecular de organismos extintos.

Esse avanço abre caminho para estudos bioquímicos mais detalhados, capazes de revelar informações inéditas sobre o crescimento, a fisiologia e a evolução dos dinossauros, consolidando uma nova etapa na investigação científica do mundo pré-histórico.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.