Ferramenta inédita pode prolongar a fertilidade feminina no futuro

Nova técnica revela por que óvulos envelhecem com a idade. (Foto: Tinttrex via Canva)
Nova técnica revela por que óvulos envelhecem com a idade. (Foto: Tinttrex via Canva)

O declínio da fertilidade feminina ao longo da idade sempre foi atribuído a um processo inevitável, mas pouco compreendido em seus detalhes biológicos. Mas, uma pesquisa recente traz novos elementos para esse debate ao revelar como alterações microscópicas nos óvulos aumentam drasticamente o risco de erros cromossômicos e, mais importante, como esse processo pode ser estudado e eventualmente modulado.

O avanço foi descrito em novembro de 2025 na revista Nature Aging, no estudo “A versatile cohesion manipulation system interrogates female reproductive age related oocyte aneuploidy”, liderado por J. Leem, com foco na biologia do envelhecimento reprodutivo feminino (DOI: 10.1038/s43587-025-00997-w).

Por que os óvulos se tornam geneticamente instáveis com a idade?

As mulheres nascem com um número finito de óvulos, que permanecem armazenados nos ovários por décadas. Com o passar do tempo, esses óvulos acumulam alterações estruturais que aumentam o risco de aneuploidia, condição em que há um número anormal de cromossomos.

A partir dos 30 anos, esse risco cresce de forma acentuada e se intensifica após os 35, 40 e 45 anos, contribuindo para infertilidade, perdas gestacionais e distúrbios genéticos. Até recentemente, os mecanismos exatos por trás desse salto abrupto permaneciam pouco claros.

Uma ferramenta que simula décadas de envelhecimento em minutos

O estudo apresentou um sistema experimental inovador que permite reproduzir em laboratório alterações típicas do envelhecimento dos óvulos sem a necessidade de esperar anos. O modelo utiliza óvulos de camundongos e emprega edição genética para controlar a degradação de uma proteína essencial chamada REC8.

Essa proteína funciona como uma cola molecular, mantendo cromossomos unidos até o momento correto da divisão celular. Ao modular artificialmente a perda de REC8, os pesquisadores conseguiram observar, em tempo real, como diferentes níveis de degradação levam a falhas na separação cromossômica.

Entre os principais achados, destacam-se:

  • Identificação de um limiar crítico de perda de REC8
  • Aumento abrupto de erros cromossômicos após esse ponto
  • Reprodução fiel de alterações vistas em óvulos naturalmente envelhecidos

O envelhecimento não depende de um único fator

Os resultados indicam que a aneuploidia não surge apenas pela degradação da REC8. Alterações adicionais em proteínas associadas à coesão cromossômica e nos filamentos responsáveis pela separação dos cromossomos atuam de forma conjunta. 

Essa falha sinérgica de múltiplos sistemas celulares parece explicar por que o risco genético aumenta tão rapidamente em determinadas fases da vida reprodutiva.

Embora a pesquisa ainda esteja em estágio experimental, o novo modelo abre caminho para testar estratégias preventivas e terapêuticas, especialmente no contexto da fertilização in vitro. Ao compreender com precisão quando e como os óvulos começam a falhar, torna-se possível pensar em intervenções que preservem sua qualidade por mais tempo.

Esse avanço representa um passo importante rumo a tratamentos que possam estender a janela reprodutiva feminina, reduzindo desigualdades biológicas e ampliando opções reprodutivas no futuro.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.