Experimentos na ISS revelam vírus capazes de combater superbactérias

ISS revela vírus poderosos que podem combater superbactérias na Terra (Imagem: Photo Library via Canva)
ISS revela vírus poderosos que podem combater superbactérias na Terra (Imagem: Photo Library via Canva)

A microgravidade da Estação Espacial Internacional (ISS) não altera apenas a sensação de flutuar: ela transforma o comportamento de microrganismos de formas surpreendentes. Pesquisas recentes da Universidade de Wisconsin-Madison, publicadas na revista PLOS Biology, revelam que bacteriófagos, vírus que infectam bactérias, podem evoluir de maneira diferente em órbita, abrindo novas possibilidades para terapias contra infecções resistentes.

Esses experimentos compararam fagos T7 e suas bactérias-alvo, Escherichia coli (E. coli), em condições idênticas na Terra e na ISS. Os resultados destacam como a microgravidade:

  • Retarda o ciclo de infecção, reduzindo a taxa de encontro entre vírus e bactérias;
  • Induz mutações específicas que alteram a eficácia do fago;
  • Revela genes e interações antes desconhecidos, com potencial para terapias terrestres.

Bacteriófagos são aliados importantes contra infecções

Representação atômica do bacteriófago T7 em detalhes estruturais (Imagem: Dr. Victor Padilla-Sanchez, PhD, CC BY-SA 4.0)
Representação atômica do bacteriófago T7 em detalhes estruturais (Imagem: Dr. Victor Padilla-Sanchez, PhD, CC BY-SA 4.0)

Os bacteriófagos são os organismos mais abundantes do planeta, capazes de se ligar a bactérias e injetar seu material genético, destruindo o hospedeiro e liberando novas partículas virais. Esse mecanismo cria uma corrida evolutiva: as bactérias podem desenvolver resistência, enquanto os fagos adaptam-se para manter sua eficácia. No ambiente de microgravidade:

  • O contato entre vírus e bactéria diminui devido à redução de convecção dos fluidos;
  • A expressão de receptores bacterianos pode mudar, dificultando a infecção inicial;
  • Após semanas, fagos e bactérias acumulam mutações que transformam radicalmente suas interações.

Implicações para a saúde na Terra

MEV colorida mostra E. coli conectadas por estruturas chamadas pili (Imagem: Photo Library via Canva)
MEV colorida mostra E. coli conectadas por estruturas chamadas pili (Imagem: Photo Library via Canva)

Além de entender ecossistemas microbianos em espaçonaves, esses estudos têm aplicações diretas na medicina. Mutantes de fagos gerados em microgravidade mostraram-se mais eficientes contra E. coli resistentes, inclusive cepas responsáveis por infecções urinárias. Isso indica que o ambiente espacial pode servir como laboratório para desenvolver antivirais bacterianos avançados, com potencial para tratar salmonela, pneumonia e sepse.

Para missões de longa duração, como viagens a Marte, é crucial monitorar como microrganismos evoluem em órbita. A microgravidade pode acelerar adaptações que impactem a resistência a antibióticos ou a virulência, exigindo estratégias de vigilância. Por outro lado, o conhecimento adquirido pode ser aplicado diretamente em engenharia de fagos e terapias inovadoras na Terra.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.