Durante décadas, pessoas com doenças musculares inflamatórias receberam orientações conservadoras quando o assunto era atividade física. O receio de agravar a inflamação levou à recomendação de exercícios leves, geralmente realizados em casa.
No entanto, novas evidências científicas começam a desafiar esse paradigma. Um estudo recente indica que o treinamento intervalado de alta intensidade pode oferecer benefícios superiores, com segurança, mesmo em pacientes recém-diagnosticados.
Publicado na revista científica eBioMedicine, o ensaio clínico randomizado multicêntrico traz dados que podem redefinir a forma como a reabilitação física é integrada ao tratamento dessas doenças raras.
O que são as miopatias inflamatórias idiopáticas
As miopatias inflamatórias idiopáticas são doenças autoimunes caracterizadas por fraqueza muscular progressiva, fadiga intensa e redução da resistência física. Além do impacto funcional, esses pacientes apresentam maior risco de sedentarismo, perda de autonomia e complicações cardiovasculares.
Tradicionalmente, o tratamento combina medicação imunossupressora com exercícios moderados. Contudo, essa abordagem mostra resultados limitados na melhora da capacidade aeróbica.
Como o estudo foi conduzido
O estudo intitulado “O treinamento intervalado de alta intensidade supera o exercício moderado para melhorar a capacidade aeróbica em pacientes com miopatias inflamatórias idiopáticas de início recente” foi conduzido por Andreasson KM et al.
Ao todo, 23 pacientes recém-diagnosticados foram acompanhados por 12 semanas e divididos em dois grupos:
- Grupo HIIT, com sessões em bicicleta ergométrica três vezes por semana
- Grupo controle, com exercícios domiciliares de intensidade moderada
Antes e depois da intervenção, os pesquisadores avaliaram capacidade aeróbica, resistência muscular, atividade da doença e função mitocondrial.
Resultados que desafiam o modelo tradicional

Os dados mostraram uma diferença clara entre as abordagens. O grupo submetido ao treinamento intervalado de alta intensidade apresentou:
- Aumento médio de 16% na capacidade aeróbica
- Ganho superior de resistência muscular
- Melhora na função mitocondrial, essencial para produção de energia celular
Enquanto isso, o grupo de exercícios moderados teve um avanço discreto, com melhora aeróbica inferior a 2%.
Segurança confirmada mesmo com treino intenso
Um dos achados mais relevantes foi a estabilidade da atividade inflamatória. Não houve aumento de marcadores de inflamação nem sinais de dano muscular, indicando que o HIIT é seguro, mesmo em fases iniciais da doença.
Esse dado é fundamental, pois desmonta a ideia de que exercícios intensos são incompatíveis com doenças musculares autoimunes.
Implicações clínicas e qualidade de vida
Além da melhora física, os resultados sugerem benefícios indiretos importantes. Melhor condicionamento aeróbico está associado à redução do risco cardiovascular, maior independência funcional e melhor qualidade de vida.
Embora o estudo tenha amostra reduzida, ele abre caminho para novos protocolos de reabilitação, integrando exercícios mais eficientes ao tratamento medicamentoso.
O que ainda precisa ser investigado
Os autores destacam a necessidade de estudos maiores e de longo prazo para confirmar os efeitos sustentados do HIIT e entender seu impacto em diferentes perfis de pacientes.
Ainda assim, os achados representam um avanço significativo no cuidado de pessoas com doenças musculares inflamatórias raras.

