Evento raro a 10 bilhões de anos-luz pode resolver mistério da expansão do universo

Supernova rara pode redefinir a expansão do Universo (Imagem: Getty Images via Canva)
Supernova rara pode redefinir a expansão do Universo (Imagem: Getty Images via Canva)

Há quase um século sabemos que o universo está se expandindo. Entretanto, a grande questão permanece: qual é exatamente a velocidade dessa expansão? Uma supernova extremamente rara pode ajudar a responder esse enigma que divide a cosmologia moderna.

O fenômeno, batizado de SN 2025wny, foi detectado por cientistas da Universidade Técnica de Munique, em parceria com a Universidade Ludwig Maximilian de Munique e institutos ligados à Sociedade Max Planck. A descoberta foi detalhada em um estudo disponibilizado na plataforma científica arXiv. Mas o que faz essa supernova se destacar?

  • Está localizada a aproximadamente 10 bilhões de anos-luz da Terra;
  • Trata-se de uma supernova superluminosa, com brilho muito superior ao das explosões estelares comuns;
  • É observada cinco vezes no céu, efeito provocado pela lente gravitacional que multiplica sua imagem.

Um efeito cósmico que multiplica imagens

O fenômeno responsável pelas múltiplas imagens é a lente gravitacional. Duas galáxias situadas entre a supernova e a Terra curvam o espaço-tempo, desviando a luz do evento em trajetórias diferentes. Como cada caminho possui comprimento distinto, a luz chega em momentos ligeiramente diferentes.

Lente gravitacional pode resolver tensão de Hubble (Imagem: Grupo de Pesquisa SN Winny)
Lente gravitacional pode resolver tensão de Hubble (Imagem: Grupo de Pesquisa SN Winny)

Esses atrasos temporais são a chave do método. Ao medir com precisão o intervalo entre as cinco imagens da supernova e modelar a distribuição de massa das galáxias que atuam como lentes, os cientistas podem calcular diretamente a constante de Hubble, parâmetro que descreve a taxa de expansão do universo. Atualmente, dois métodos principais produzem resultados conflitantes para a constante de Hubble:

  • A escada de distâncias cósmicas, baseada em medições progressivas de objetos com brilho conhecido;
  • A análise da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, que modela o universo primordial.

Essa divergência é conhecida como tensão de Hubble e levanta dúvidas sobre possíveis lacunas no modelo padrão da cosmologia.

A supernova SN 2025wny oferece uma alternativa promissora: um método de etapa única, com menos dependência de calibrações sucessivas ou suposições sobre o universo primitivo.

Precisão inédita graças a um sistema simples

Diferentemente de casos anteriores, em que aglomerados massivos de galáxias dificultavam os cálculos, este sistema envolve apenas duas galáxias individuais, com distribuição de massa relativamente regular. Isso simplifica a modelagem gravitacional e pode aumentar a precisão da medição.

Astrônomos ao redor do mundo continuam monitorando o evento com telescópios terrestres e espaciais. Se os dados confirmarem as expectativas, a SN 2025wny poderá contribuir decisivamente para resolver um dos maiores debates da cosmologia contemporânea.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes