Durante décadas, acreditou-se que resíduos de petróleo no oceano tinham alcance limitado, sendo degradados relativamente rápido pela ação do sol e de microrganismos. No entanto, uma descoberta recente mudou esse entendimento. Materiais comuns como plástico, vidro e borracha, ao entrarem em contato com óleo, podem funcionar como verdadeiros veículos de longa distância, levando poluentes por mais de 8.000 quilômetros através do oceano.
O fenômeno chamou atenção após a chegada de detritos incomuns às praias da Flórida, cobertos por uma substância escura e pegajosa. A partir daí, análises científicas detalhadas revelaram um elo inesperado com a costa brasileira. De acordo com o estudo, três fatores se mostraram decisivos para desvendar esse percurso transatlântico:
- Aderência do petróleo a superfícies plásticas e borracha;
- Correntes oceânicas de longa duração;
- Persistência química dos resíduos oleosos protegidos do ambiente.
O papel oculto do chamado “petroplástico”
Pesquisas publicadas na revista Environmental Science & Technology, conduzidas por cientistas como Bryan James e Christopher Reddy, demonstraram que o plástico não apenas polui por si só, mas também amplifica outros tipos de contaminação. Surge assim o conceito de petroplástico, um híbrido ambiental que combina poluição fóssil e resíduos sólidos.

Modelagens oceânicas indicaram que os detritos analisados permaneceram à deriva por cerca de oito meses, tempo suficiente para cruzar o Atlântico impulsionados por grandes sistemas de corrente. Além disso, análises químicas revelaram que o óleo encontrado apresentava características compatíveis com petróleo previamente derramado no litoral brasileiro em 2019.
Um efeito dominó na saúde dos oceanos
Esse tipo de transporte invisível amplia significativamente os riscos ambientais, pois, ao viajar aderido ao plástico, o petróleo passa a escapar da degradação natural acelerada, alcança ecossistemas distantes e sensíveis, aumenta a exposição da fauna marinha a substâncias tóxicas e ainda dificulta o rastreamento preciso da origem da poluição.
Além disso, esse processo traz implicações diretas para a saúde humana, já que microplásticos contaminados podem ingressar na cadeia alimentar e acumular compostos químicos nocivos ao longo dos níveis tróficos.
Um novo alerta para políticas ambientais globais
Mais do que um evento isolado, essa descoberta revela uma falha crítica na forma como o mundo lida com resíduos plásticos e derramamentos de petróleo. A interação entre esses dois poluentes cria um problema maior do que a soma de suas partes, exigindo estratégias integradas de monitoramento, prevenção e limpeza dos oceanos.
Entender como o lixo plástico pode carregar poluentes por oceanos inteiros é essencial para proteger não apenas praias distantes, mas todo o equilíbrio dos ecossistemas marinhos.

