Na Amazônia brasileira, o peixe não é apenas um alimento comum ele representa a principal fonte de proteína para milhões de pessoas que vivem às margens dos rios. No entanto, uma pesquisa recente indica que esse hábito alimentar essencial pode estar associado a riscos à saúde devido à presença de metais tóxicos em espécies consumidas diariamente.
O estudo, conduzido por Fábio Edir Amaral Albuquerque e Antonio Humberto Hamad Minervino e publicado na revista científica ACS Omega, investigou a presença de arsênio, cádmio, mercúrio e chumbo em peixes capturados em municípios do oeste do Pará. Os resultados sugerem que a exposição a essas substâncias pode ser maior do que as avaliações tradicionais de segurança alimentar costumam indicar.
Para obter dados mais precisos, os pesquisadores coletaram 398 peixes diretamente com pescadores locais, garantindo a origem exata das amostras. Entre as espécies analisadas estavam:
- Tucunaré;
- Piranha;
- Pirarucu;
- Caparari;
- Aracu;
- Acari.
Esses peixes ocupam diferentes níveis da cadeia alimentar, o que permite avaliar como metais pesados se acumulam ao longo do ecossistema aquático.
Quando o alimento básico se torna um risco invisível
Um dos principais pontos do estudo está relacionado ao alto consumo de peixe pelas comunidades ribeirinhas. Em média, moradores da região ingerem cerca de 462 gramas de peixe por dia, um valor quase 20 vezes maior que a média brasileira.
Esse padrão alimentar muda completamente a avaliação de risco. Quando os cálculos consideram o consumo médio nacional, a maioria dos resultados parece segura. No entanto, ao aplicar o consumo real das comunidades amazônicas, os níveis de exposição aumentam drasticamente.
O mercúrio foi o elemento mais preocupante, principalmente em espécies predadoras, como tucunaré e piranha. Nesses casos, a ingestão potencial ultrapassou em muitos casos os limites considerados seguros para a saúde humana.
Arsênio e possíveis impactos a longo prazo
Além do mercúrio, o arsênio também chamou atenção pela associação com riscos de câncer. Em cerca de 25% das amostras analisadas, os níveis ultrapassaram os parâmetros internacionais de risco carcinogênico quando considerado o padrão alimentar local.
O arsênio é classificado como carcinógeno do Grupo 1, categoria que inclui substâncias com evidências sólidas de associação com câncer.
Embora a pesquisa não estabeleça uma relação direta entre contaminação e doenças, dados regionais de saúde apontam aumento recente em alguns tipos de câncer em áreas onde os níveis de exposição identificados foram mais elevados. Isso indica a necessidade de investigações mais aprofundadas.
De onde vêm os metais pesados nos rios amazônicos?
A presença desses contaminantes reflete pressões ambientais acumuladas na região amazônica. Entre os principais fatores estão:
- Garimpo de ouro, que libera mercúrio nos rios;
- Mineração de bauxita, associada a resíduos ricos em metais;
- Expansão agrícola e desmatamento, que mobilizam metais presentes naturalmente no solo.
Esses elementos entram nos rios e acabam se acumulando na cadeia alimentar, especialmente em peixes predadores.
O desafio de proteger a saúde sem comprometer a segurança alimentar
Os pesquisadores ressaltam que o objetivo não é desencorajar o consumo de peixe nas comunidades amazônicas. Para muitos moradores, esse alimento é a única fonte acessível de proteína. O estudo destaca, porém, a importância de medidas como:
- Monitoramento ambiental contínuo;
- Orientação nutricional baseada nas espécies mais seguras;
- Políticas de saúde pública adaptadas às realidades locais.
Com estratégias adequadas, é possível reduzir a exposição a metais tóxicos sem comprometer a alimentação das populações ribeirinhas, garantindo segurança alimentar e proteção à saúde ao mesmo tempo.
Escrito por Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ) para o Fala Ciência.

