O envelhecimento cerebral é um dos principais fatores de risco para a doença de Alzheimer, condição neurodegenerativa marcada pela perda progressiva da memória e da capacidade cognitiva. Embora tratamentos atuais ajudem a aliviar sintomas, eles ainda não atuam diretamente nos mecanismos biológicos que impulsionam o declínio cognitivo.
Mas, uma nova pesquisa sugere que uma molécula natural associada ao envelhecimento saudável pode abrir um caminho promissor para proteger a memória antes que danos irreversíveis se instalem.
O estudo foi publicado em novembro de 2025 na revista Aging Cell, com o título Alfa-cetoglutarato melhora os déficits de plasticidade sináptica em modelo de camundongos APP/PS1 da doença de Alzheimer. A pesquisa teve como autor principal Sheeja Navakkode e investigou os efeitos do alfa-cetoglutarato de cálcio (CaAKG), um metabólito naturalmente presente no organismo, cujos níveis diminuem com a idade (DOI: 10.1111/acel.70235).
Abordagem mira a biologia do envelhecimento
Diferentemente das terapias tradicionais focadas apenas nas placas de amiloide ou nos sintomas cognitivos, o estudo adotou uma perspectiva geroprotetora, voltada à própria biologia do envelhecimento. O objetivo foi avaliar se o CaAKG poderia restaurar funções cerebrais fundamentais comprometidas precocemente na doença de Alzheimer.
Os resultados mostraram que o composto melhora significativamente a plasticidade sináptica, processo essencial para o aprendizado e a formação de memórias. Essa melhora sugere que atuar sobre vias metabólicas ligadas à longevidade pode oferecer benefícios cognitivos amplos e duradouros.
Restauração da comunicação entre neurônios
Um dos principais focos da pesquisa foi a potenciação de longo prazo, mecanismo que fortalece as conexões entre neurônios e sustenta a memória de longo prazo. Nos modelos da doença de Alzheimer, esse processo encontra-se gravemente prejudicado. A administração de CaAKG restaurou a potenciação de longo prazo a níveis próximos do normal, indicando recuperação funcional das sinapses.
Além disso, o composto favoreceu a comunicação neuronal eficiente, restaurando a sinalização envolvida na memória associativa, uma das primeiras habilidades cognitivas a declinar no Alzheimer.
Limpeza celular e flexibilidade neuronal
Outro achado relevante foi o aumento da autofagia, sistema de reciclagem celular que remove proteínas danificadas e mantém a saúde dos neurônios. Esse processo é particularmente importante no cérebro envelhecido, onde o acúmulo de resíduos celulares contribui para a degeneração neuronal.
O CaAKG atuou por vias alternativas, ativando canais de cálcio do tipo L e receptores AMPA permeáveis ao cálcio. Esse mecanismo evita a dependência de receptores NMDA, frequentemente comprometidos pelo acúmulo de amiloide, oferecendo uma rota funcional mais preservada na doença.
Proteção da memória associativa
A pesquisa também demonstrou que o CaAKG restaura a marcação e captura sináptica, mecanismo que permite ao cérebro conectar experiências distintas e formar memórias complexas. Esse efeito sugere benefícios não apenas para a memória básica, mas também para funções cognitivas superiores que tendem a se deteriorar precocemente no Alzheimer.
Ao conectar a ciência da longevidade à neuroproteção, o estudo aponta para uma estratégia inovadora de prevenção do declínio cognitivo. Por ser uma molécula naturalmente presente no organismo, o CaAKG pode representar uma abordagem potencialmente mais segura e acessível para promover um envelhecimento cerebral saudável.
Embora mais estudos sejam necessários antes da aplicação clínica, os achados reforçam a ideia de que intervir precocemente nos mecanismos do envelhecimento pode ser uma das chaves para enfrentar doenças neurodegenerativas como o Alzheimer.

