Estudo mede pela primeira vez poluição de foguetes em altitude extrema

Cientistas medem poluição a 100 km de altitude (Imagem: Getty Images via Canva)
Cientistas medem poluição a 100 km de altitude (Imagem: Getty Images via Canva)

O brilho intenso de uma bola de fogo cruzando o céu europeu pode parecer apenas um espetáculo astronômico. No entanto, por trás da cena provocada pela reentrada de um estágio do Falcon 9, cientistas registraram algo inédito: a primeira medição direta de poluição atmosférica causada por reentrada de foguetes em altitudes extremas.

O estudo, liderado por Robin Wing e Gerd Baumgarten, do Instituto Leibniz de Física Atmosférica, foi publicado na revista Communications Earth & Environment. A pesquisa abre uma nova frente de investigação sobre impactos ambientais da crescente atividade espacial. Entre os principais achados:

  • Detecção de uma pluma de lítio a quase 100 km de altitude;
  • Concentração até 10 vezes superior ao nível normal;
  • Confirmação de que é possível medir poluentes antes da dispersão.

Poluentes espaciais podem ter impacto maior do que se imaginava

A região analisada situa-se entre 50 e 100 quilômetros acima da superfície, abrangendo a mesosfera e parte da baixa termosfera. Por ser difícil de acessar tanto por balões quanto por satélites convencionais, ela é informalmente chamada de “ignorosfera”.

Para detectar os resíduos da reentrada, a equipe utilizou a tecnologia LIDAR, que dispara pulsos de laser na atmosfera e analisa a luz refletida. Dessa forma, foi possível identificar o aumento súbito de metais liberados durante a queima do estágio superior do foguete.

Esse tipo de medição é crucial porque poluentes liberados em grandes altitudes podem ter efeitos desproporcionais. Estimativas indicam que uma tonelada de emissões a 75 km pode equivaler, em impacto atmosférico, a centenas de milhares de toneladas liberadas ao nível do solo.

O desafio da nova corrida espacial

Atualmente, cerca de 14 mil satélites ativos orbitam a Terra, e há planos para ampliar drasticamente esse número nas próximas décadas. Cada lançamento envolve múltiplos estágios que, ao retornarem à atmosfera, se desintegram e liberam partículas metálicas.

Embora ainda não se conheça totalmente o impacto dessa poluição na camada de ozônio ou no clima global, especialistas alertam para possíveis riscos cumulativos. A ausência de regulamentação específica para emissões na alta atmosfera também preocupa pesquisadores da área de química atmosférica.

Portanto, compreender os efeitos da reentrada de foguetes tornou-se urgente. À medida que a economia espacial cresce, torna-se essencial equilibrar inovação tecnológica com responsabilidade ambiental, inclusive nas camadas mais distantes e menos visíveis da atmosfera terrestre.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes