Estudo dinamarquês liga tatuagens a linfoma e câncer de pele

Tinta de tatuagem pode migrar da pele para o organismo. (Foto: Pexels via Canva)
Tinta de tatuagem pode migrar da pele para o organismo. (Foto: Pexels via Canva)

As tatuagens deixaram de ser exceção e passaram a integrar o cotidiano de grande parte da população adulta. Entretanto, à medida que a prática se torna mais comum, a ciência começa a investigar possíveis efeitos biológicos de longo prazo associados à injeção permanente de pigmentos na pele

Um estudo recente conduzido na Dinamarca reacendeu esse debate ao identificar uma associação estatística entre exposição à tinta de tatuagem e maior ocorrência de linfoma e câncer de pele.

O estudo que levantou o alerta

A pesquisa intitulada “Tattoo ink exposure is associated with lymphoma and skin cancers: a Danish study of twins”, liderada por Signe Bedsted Clemmensen e colaboradores, foi publicada em periódico científico internacional e utilizou dados do Registro Dinamarquês de Gêmeos, uma das bases epidemiológicas mais robustas do mundo.

O uso de gêmeos permitiu uma análise mais refinada, reduzindo a influência de fatores genéticos e ambientais compartilhados. Assim, foi possível observar com maior precisão o impacto da exposição crônica aos pigmentos de tatuagem ao longo do tempo.

O destino da tinta dentro do organismo

Ao contrário do que se imagina, a tinta não permanece restrita à camada superficial da pele. Estudos experimentais e observacionais mostram que micropartículas de pigmento podem migrar pelo organismo, alcançando o sistema linfático e acumulando-se nos linfonodos.

Esse acúmulo contínuo pode estimular respostas inflamatórias persistentes, um mecanismo biologicamente associado ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer. O estudo dinamarquês observou que indivíduos tatuados apresentaram maior frequência de linfoma, reforçando essa hipótese.

Composição química sob análise

Tatuagens grandes estão associadas a riscos mais elevados. (Foto: Getty Images via Canva)
Tatuagens grandes estão associadas a riscos mais elevados. (Foto: Getty Images via Canva)

Outro ponto relevante abordado pela pesquisa diz respeito à natureza química das tintas. Pigmentos pretos, amplamente utilizados, frequentemente contêm negro de fumo, substância classificada como potencialmente cancerígena. Já os pigmentos coloridos podem sofrer transformações químicas quando expostos à radiação ultravioleta ou durante procedimentos de remoção a laser, liberando compostos indesejáveis no organismo.

Esses processos aumentam a preocupação sobre a exposição prolongada do corpo a substâncias bioativas, especialmente em tatuagens extensas.

Área tatuada e risco aumentado

Os dados analisados por Clemmensen e equipe indicaram que tatuagens maiores, especialmente aquelas que cobrem áreas extensas do corpo, estiveram associadas a um risco mais elevado tanto de câncer de pele quanto de linfoma. Isso sugere que a quantidade total de tinta absorvida pode desempenhar um papel importante na resposta biológica do organismo.

O que os resultados significam

Os autores destacam que os achados não permitem afirmar que tatuagens causam câncer. Ainda assim, a associação consistente observada indica a necessidade de estudos adicionais e maior atenção clínica. 

Além disso, tatuagens extensas podem dificultar a identificação precoce de lesões cutâneas, atrasando diagnósticos importantes.

Implicações para a saúde pública

Embora as tatuagens continuem sendo amplamente praticadas, o estudo reforça a importância de monitoramento dermatológico regular e de pesquisas contínuas sobre os efeitos sistêmicos dos pigmentos. A exposição crônica à tinta é um fenômeno relativamente recente, e seus impactos de longo prazo ainda estão sendo mapeados pela ciência.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.