Estudo associa dieta simples à redução de AVC em mulheres

Dieta aparece como fator protetor ao longo dos anos. (Foto: Getty Images via Canva)
Dieta aparece como fator protetor ao longo dos anos. (Foto: Getty Images via Canva)

Pensar em AVC costuma remeter a idade avançada, genética ou fatores fora de controle. No entanto, uma decisão cotidiana e aparentemente simples pode influenciar esse risco silencioso ao longo dos anos. O que vai ao prato, dia após dia, pode ter um impacto profundo na saúde do cérebro.

Ao longo de mais de duas décadas, mulheres que mantiveram um padrão alimentar consistente baseado na dieta mediterrânea apresentaram uma incidência significativamente menor de acidente vascular cerebral, incluindo formas menos estudadas da doença. A associação reforça a ideia de que a alimentação atua como um fator acumulativo de proteção neurológica.

O que diferencia esse padrão alimentar

A dieta mediterrânea não é uma dieta restritiva, mas um modelo alimentar focado em alimentos naturais e pouco processados. Ela prioriza:

  • Vegetais, frutas e leguminosas
  • Peixes e frutos do mar
  • Azeite de oliva como principal fonte de gordura
  • Grãos integrais
  • Consumo reduzido de carne vermelha, laticínios e gorduras saturadas

Esse conjunto favorece um ambiente metabólico menos inflamatório e mais estável para o sistema cardiovascular e cerebral.

Como a alimentação impacta o risco de AVC

O AVC pode ocorrer por obstrução do fluxo sanguíneo no cérebro ou por ruptura de vasos, causando sangramento. Ambos os mecanismos estão fortemente ligados a inflamação crônica, rigidez arterial e disfunção vascular.

Dietas ricas em gorduras insaturadas, antioxidantes e fibras ajudam a:

  • Melhorar a saúde dos vasos sanguíneos
  • Reduzir processos inflamatórios
  • Controlar pressão arterial e metabolismo da glicose
  • Proteger a integridade das artérias cerebrais

Esses efeitos se acumulam ao longo do tempo, explicando por que benefícios mais claros aparecem em estudos de longo prazo.

Evidência científica de longo prazo

A associação entre esse padrão alimentar e menor risco de AVC foi documentada na revista científica Neurology Open Access, no estudo “Dieta Mediterrânea e o Risco de Subtipos de Acidente Vascular Cerebral em Mulheres”, liderado por Sophia S. Wang e publicado em 4 de fevereiro de 2026 (DOI: 10.1212/WN9.0000000000000062).

A análise acompanhou mais de 100 mil mulheres por cerca de 21 anos. Mesmo após ajustes para fatores como tabagismo, atividade física e hipertensão, mulheres com maior adesão ao padrão mediterrâneo apresentaram:

  • 18% menos risco de AVC total
  • 16% menos AVC isquêmico
  • 25% menos AVC hemorrágico

A alimentação não age sozinha, mas pesa ao longo do tempo

Vale destacar que os dados não indicam que a dieta, isoladamente, previna o AVC. O que se observa é uma associação consistente, sugerindo que a alimentação atua como um fator protetor relevante, embora muitas vezes subestimado na prevenção neurológica.

Ainda assim, os resultados reforçam que há escolhas diárias que moldam o risco cerebral no longo prazo.

Um fator silencioso, mas modificável

O AVC segue entre as maiores causas de morte e sequelas globalmente. Diante disso, padrões alimentares sustentáveis e culturalmente adaptáveis, como a dieta mediterrânea, surgem como aliados acessíveis na proteção do cérebro.

Mais do que seguir uma dieta por moda, trata-se de construir um ambiente biológico menos favorável à doença, refeição após refeição.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) e une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica. Com rigor técnico e olhar atento, dedica-se a traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano, combatendo a desinformação com embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn