Esse nutriente esquecido pode ser essencial para memória e defesa contra câncer

Gene SLC35F2 transportando a queuosina para dentro das células. (Foto: Fala Ciência via Gemini)
Gene SLC35F2 transportando a queuosina para dentro das células. (Foto: Fala Ciência via Gemini)

Durante décadas, cientistas suspeitaram da existência de um nutriente essencial pouco compreendido, capaz de influenciar funções críticas do organismo. Uma descoberta recente ajuda a esclarecer esse mistério e abre novas perspectivas para a saúde humana.

Esse composto, chamado queuosina, é um micronutriente semelhante a uma vitamina que o corpo humano não consegue produzir sozinho. Ele depende da alimentação e também da ação de bactérias intestinais para estar disponível no organismo. Apesar disso, permaneceu amplamente ignorado pela ciência por muitos anos.

A descoberta que resolveu um enigma científico

Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, liderado por Lyubomyr Burtnyak em 2025, identificou o gene responsável por permitir a entrada da queuosina nas células humanas.

O gene, conhecido como SLC35F2, atua como um transportador altamente específico desse nutriente. Essa descoberta encerra uma dúvida científica que persistia há mais de 30 anos e representa um avanço importante na compreensão da biologia humana.

Além disso, o SLC35F2 já era conhecido por sua interação com certos medicamentos e até vírus, mas sua função fisiológica natural ainda não estava clara até agora.

Como a queuosina atua dentro do organismo

A importância da queuosina está diretamente ligada ao processo de produção de proteínas. Ela atua modificando o RNA de transferência, estrutura responsável por interpretar o código genético e transformar essa informação em proteínas funcionais.

Na prática, isso significa que esse nutriente influencia:

  • A leitura correta do DNA
  • A qualidade da síntese de proteínas
  • O funcionamento celular como um todo

Esses efeitos explicam por que a queuosina está associada a áreas críticas da saúde, como:

  • Função cerebral e memória
  • Regulação metabólica
  • Resposta ao estresse celular
  • Supressão do crescimento de células cancerígenas

Como obter a queuosina na alimentação

Alimentos ajudam o corpo a produzir queuosina. (Foto: Sebastian Moldoveanu via Canva)
Alimentos ajudam o corpo a produzir queuosina. (Foto: Sebastian Moldoveanu via Canva)

Embora pouco conhecida, a queuosina pode ser favorecida por meio da dieta e da saúde intestinal. Isso porque o corpo não produz esse nutriente sozinho.

Na prática, você obtém sua forma precursora por dois caminhos principais:

Alimentos de origem animal

  • Carnes, especialmente fígado
  • Peixes
  • Ovos
  • Leite e derivados

Esses alimentos fornecem compostos que o organismo utiliza para formar a queuosina.

Vegetais e microbiota intestinal

  • Verduras
  • Legumes
  • Grãos integrais

Nesse caso, o papel principal é alimentar as bactérias do intestino, que ajudam na produção do nutriente.

Intestino saudável faz diferença

Para otimizar esse processo, é importante manter a microbiota equilibrada. Alguns aliados incluem:

  • Fibras (aveia, frutas, vegetais)
  • Alimentos fermentados como iogurte e kefir

Isso reforça a conexão entre alimentação, intestino e expressão genética.

A ligação entre intestino, dieta e genes

Outro ponto relevante dessa descoberta é a conexão entre microbioma intestinal, alimentação e expressão genética.

Como a queuosina depende de bactérias intestinais e da dieta, sua presença no organismo reflete diretamente hábitos alimentares e equilíbrio da microbiota. Isso reforça a ideia de que o que comemos pode influenciar não apenas a saúde geral, mas também a forma como nossos genes são expressos.

Essa interação mostra que nutrientes aparentemente simples podem ter impactos profundos na biologia humana.

Novas possibilidades para tratamentos futuros

A identificação do gene SLC35F2 abre portas para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas inovadoras. Compreender como a queuosina entra nas células pode permitir:

  • Melhor aproveitamento de nutrientes essenciais
  • Desenvolvimento de terapias direcionadas
  • Avanços no tratamento de doenças neurodegenerativas
  • Novas abordagens contra o câncer

Além disso, o fato de esse gene também estar relacionado à entrada de medicamentos nas células pode facilitar a criação de tratamentos mais eficazes.

Um novo olhar sobre nutrientes negligenciados

Essa descoberta reforça a importância de investigar compostos pouco conhecidos, que podem desempenhar papéis fundamentais na saúde.

O caso da queuosina mostra que ainda existem muitos elementos invisíveis no funcionamento do corpo humano que podem transformar a medicina moderna.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn