A dor crônica costuma ser vista apenas como um problema de qualidade de vida. No entanto, evidências científicas recentes mostram que seus impactos podem ser mais amplos e silenciosos. Um grande estudo populacional indica que conviver com dor persistente aumenta significativamente o risco de desenvolver hipertensão arterial, um dos principais fatores para doenças cardiovasculares e mortalidade precoce.
A pesquisa foi publicada na revista científica Hypertension, sob o título Chronic pain and hypertension: the mediating role of inflammation and depression, com autoria principal de Pei Qin, em 2025 (DOI: 10.1161/HYPERTENSIONAHA.125.25544). O trabalho analisou dados do UK Biobank, um dos maiores bancos de dados populacionais em saúde do mundo.
Quanto maior a dor, maior o risco cardiovascular
Os pesquisadores avaliaram informações de 206.963 adultos, todos sem diagnóstico prévio de hipertensão no início do acompanhamento. Após um período médio de 13,5 anos, quase 10% dos participantes desenvolveram pressão arterial elevada.
Os resultados revelaram uma relação clara entre duração, localização da dor e risco de hipertensão. Pessoas com dor crônica generalizada, ou seja, presente em várias regiões do corpo por mais de três meses, apresentaram um risco aproximadamente 75% maior de desenvolver hipertensão quando comparadas àquelas sem dor.
Mesmo dores persistentes mais localizadas também estiveram associadas ao aumento do risco, embora em menor intensidade. Entre as localizações com maior impacto estavam dor abdominal, cefaleia crônica, dor no pescoço e ombros, costas e quadril.
Depressão e inflamação ajudam a explicar o mecanismo
Um dos principais avanços do estudo foi identificar fatores intermediários que ajudam a explicar essa associação. Os dados mostraram que pessoas com dor crônica apresentavam maior prevalência de sintomas depressivos e níveis mais elevados de proteína C-reativa, um marcador de inflamação sistêmica.
Juntos, depressão e inflamação explicaram cerca de 12% da relação entre dor crônica e hipertensão. Isso indica que a dor prolongada pode desencadear alterações emocionais e inflamatórias que, ao longo do tempo, contribuem para o aumento da pressão arterial.
Relevância para a saúde pública
A hipertensão arterial é uma condição comum e frequentemente assintomática, responsável por elevar o risco de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e doença renal. Identificar grupos com maior risco permite estratégias mais eficazes de prevenção.
Os resultados sugerem que pessoas com dor crônica devem receber monitoramento mais atento da pressão arterial, além de avaliação para sintomas depressivos e inflamatórios. O manejo adequado da dor pode, portanto, trazer benefícios que vão além do alívio dos sintomas físicos.
Limitações e cuidados na interpretação
Os autores destacam que a dor foi autorrelatada, o que pode gerar variações na percepção individual. Além disso, a maioria dos participantes era composta por adultos brancos de meia-idade ou idosos, o que limita a extrapolação dos resultados para outras populações.
Ainda assim, o grande tamanho da amostra, o longo período de acompanhamento e o ajuste para múltiplos fatores de estilo de vida fortalecem a consistência das conclusões.
O que as evidências indicam na prática clínica
Os achados não sugerem que qualquer dor ocasional leve ao aumento da pressão. No entanto, dor persistente, especialmente quando disseminada, deve ser encarada como um sinal de alerta cardiovascular.
Em termos práticos, controlar a dor crônica também é uma estratégia de prevenção da hipertensão, reforçando a importância de abordagens integradas que considerem corpo, mente e inflamação.

