Digestão do amido: como o organismo transforma esse carboidrato em energia

Modelo do sistema digestivo e batatas, alimentos ricos em amido

O arroz do almoço, o pão do café da manhã e a batata do jantar têm algo em comum: todos são fontes de amido, um carboidrato importante para a alimentação humana. Embora esteja presente em alimentos tão diferentes, essa molécula precisa passar por várias etapas antes que o organismo consiga aproveitar sua energia.

A digestão do amido envolve enzimas presentes na boca e no intestino, transformações químicas e mecanismos de absorção intestinal. Além disso, nem todo amido é digerido da mesma maneira. Parte dele pode resistir à ação das enzimas e chegar ao intestino grosso, onde é utilizado por microrganismos da microbiota intestinal.

O que é o amido e por que precisamos digeri-lo?

O amido é um polissacarídeo formado por numerosas unidades de glicose, um açúcar utilizado pelas células para produzir energia. Nas plantas, ele funciona como uma reserva energética, sendo encontrado principalmente em sementes, raízes e tubérculos.

Sua estrutura apresenta dois componentes principais: a amilose, formada predominantemente por cadeias pouco ramificadas, e a amilopectina, que possui numerosas ramificações.

Para aproveitar a glicose presente nessa molécula, o organismo precisa quebrar suas ligações químicas. Esse processo acontece por meio da hidrólise enzimática, na qual enzimas fragmentam o amido em moléculas menores.

Gostou dessa notícia?

Siga o canal do Fala Ciência no WhatsApp para receber nossos conteúdos em primeira mão!

Entrar no Canal do WhatsApp

Como começa a digestão do amido na boca?

A digestão do amido começa na boca, durante a mastigação. Nesse momento, o alimento é triturado e misturado à saliva, que contém a enzima amilase salivar, também conhecida como ptialina.

Essa enzima começa a romper determinadas ligações químicas do amido, formando moléculas menores, como maltose, maltotriose e dextrinas.

Entretanto, a digestão ainda não está completa. A amilase salivar atua durante um período limitado, pois a acidez do estômago reduz sua atividade.

O que acontece com o amido no estômago?

Depois de ser engolido, o alimento chega ao estômago, onde é misturado ao suco gástrico. O ambiente ácido é essencial para a digestão de proteínas, mas também interfere na atividade da amilase salivar.

À medida que o conteúdo alimentar se torna mais ácido, a digestão do amido pela enzima salivar diminui e acaba sendo interrompida.

Isso não significa que todo o amido permaneça intacto. Parte dele já foi fragmentada na boca, e a digestão será retomada principalmente no intestino delgado.

Intestino delgado: onde a digestão avança

Representação 3D do sistema digestivo humano, com destaque para o estômago e intestinos

No intestino delgado, o pâncreas libera o suco pancreático, que contém a enzima amilase pancreática. Ela continua a quebra do amido, produzindo moléculas menores que serão processadas por enzimas presentes na superfície das células intestinais.

Entre essas enzimas estão a maltase-glicoamilase e o complexo sacarase-isomaltase, que participam da etapa final da digestão dos carboidratos.

O resultado é a formação de glicose, um monossacarídeo que pode ser absorvido pelas células do intestino delgado.

Como a glicose chega às células?

Após a digestão, a glicose atravessa o epitélio intestinal por mecanismos específicos de transporte. Uma proteína chamada SGLT1 participa da entrada de glicose nas células intestinais, enquanto transportadores como o GLUT2 participam de sua saída em direção ao sangue.

A glicose absorvida segue pela circulação até diferentes tecidos, onde pode ser utilizada na produção de energia celular.

Quando existe disponibilidade suficiente, parte dessa glicose também pode ser armazenada na forma de glicogênio, principalmente no fígado e nos músculos.

Todo o amido é digerido da mesma maneira?

Não. A velocidade da digestão depende de fatores como a estrutura do amido, o processamento do alimento, o cozimento e a composição da refeição.

O amido resistente, por exemplo, escapa parcialmente à digestão no intestino delgado. Ao chegar ao intestino grosso, pode ser fermentado por bactérias da microbiota intestinal, produzindo ácidos graxos de cadeia curta, como o butirato.

Em um estudo publicado em 1º de junho de 2026, na revista científica Carbohydrate Polymers, o primeiro autor Myeongsu Jo investigou a digestibilidade de estruturas cristalinas de amido de milho submetidas à ação de enzimas da mucosa intestinal de mamíferos.

Os pesquisadores observaram que a resistência à digestão variava conforme a organização molecular e as características da superfície dessas estruturas. Após 24 horas de experimento laboratorial, a proporção de amido hidrolisado variou de aproximadamente 32% a 69%, dependendo da amostra analisada. Esses resultados mostram como a estrutura física do amido pode influenciar o acesso das enzimas à molécula, embora o experimento não represente diretamente a digestão completa de uma refeição em seres humanos.

Como o cozimento modifica a digestão do amido?

O cozimento geralmente facilita a digestão porque o calor e a água promovem a gelatinização do amido, alterando sua organização e tornando suas cadeias mais acessíveis às enzimas.

Por outro lado, quando determinados alimentos ricos em amido são cozidos e depois resfriados, parte das moléculas pode se reorganizar em uma estrutura mais resistente à digestão. Esse fenômeno é chamado de retrogradação e pode aumentar a quantidade de amido resistente.

A intensidade dessas mudanças depende do alimento, da variedade vegetal, do preparo e das condições de armazenamento.

Assim, a digestão do amido não depende apenas da quantidade consumida, mas também de sua estrutura e da forma como o alimento foi preparado.

Resumo da digestão do amido

A digestão do amido começa com a amilase salivar na boca, diminui no ambiente ácido do estômago e prossegue no intestino delgado pela ação da amilase pancreática e de enzimas intestinais. A glicose liberada é absorvida e pode ser utilizada pelas células para produzir energia.

Já a fração resistente à digestão pode alcançar o intestino grosso e servir de substrato para a microbiota intestinal.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes