O diabetes tipo 2 é amplamente conhecido por aumentar o risco de infartos e derrames. No entanto, novas evidências mostram que o impacto da doença vai além do risco estatístico.
O diabetes altera fisicamente o coração humano, modificando sua estrutura, comprometendo sua produção de energia e tornando o músculo cardíaco progressivamente mais rígido e fraco. Essas mudanças silenciosas ajudam a explicar por que pessoas com diabetes evoluem com maior frequência para insuficiência cardíaca.
O que a ciência observou diretamente em corações humanos
Um estudo recente analisou tecido cardíaco humano doado por pacientes submetidos a transplante de coração e o comparou com amostras de indivíduos sem doença metabólica. A pesquisa foi publicada na revista científica EMBO Molecular Medicine com o título
“Perfil molecular do miocárdio ventricular esquerdo na cardiomiopatia isquêmica diabética humana”,assinado por Benjamin Hunter, Yunwei Zhang, Dylan Harney e colaboradores.
A análise revelou que o diabetes tipo 2 não atua apenas como condição associada. Ele remodela ativamente o músculo cardíaco, especialmente em pessoas com doença cardíaca isquêmica, a principal causa de insuficiência cardíaca no mundo.
Quando o coração perde eficiência energética?
Em condições normais, o coração é um órgão altamente dependente de energia e utiliza principalmente gorduras, além de glicose e corpos cetônicos, para sustentar suas contrações contínuas. O estudo mostrou que o diabetes desorganiza esse sistema energético, reduzindo a sensibilidade das células cardíacas à insulina.
Como consequência, ocorre:
- Estresse mitocondrial, afetando as usinas de energia da célula
- Menor flexibilidade metabólica do coração
- Agravamento das alterações já presentes na insuficiência cardíaca
Esse desequilíbrio energético compromete a capacidade do coração de se adaptar a situações de maior demanda.
Enrijecimento do músculo e perda da força de contração

Além do impacto metabólico, os pesquisadores identificaram alterações estruturais profundas. O diabetes reduziu a produção de proteínas essenciais para:
- Contração do músculo cardíaco
- Regulação do cálcio intracelular
- Manutenção da elasticidade do tecido
Ao mesmo tempo, foi observado um acúmulo excessivo de tecido fibroso, processo conhecido como fibrose cardíaca. Esse enrijecimento dificulta o enchimento e o bombeamento do coração, acelerando a progressão para insuficiência cardíaca.
Alterações genéticas confirmam o remodelamento cardíaco
O sequenciamento de RNA confirmou que essas mudanças não ocorrem apenas no nível das proteínas. Houve alterações na expressão gênica em vias relacionadas ao metabolismo energético e à estrutura do tecido cardíaco.
Técnicas avançadas de microscopia permitiram visualizar essas transformações diretamente no músculo humano.
Impacto clínico e caminhos para novos tratamentos
Esses achados reforçam que o diabetes tipo 2 deve ser encarado como uma doença que afeta diretamente o coração, e não apenas como um fator de risco indireto. A identificação de vias associadas à disfunção mitocondrial e à fibrose abre espaço para:
- Novos alvos terapêuticos
- Estratégias de diagnóstico mais precisas
- Integração entre cardiologia e endocrinologia
Com milhões de pessoas vivendo com diabetes tipo 2, compreender como a doença remodela o coração pode ser decisivo para prevenir a falência cardíaca no futuro.

