Descoberta revela bipedalismo em fóssil quase tão antigo quanto os macacos

Fóssil de 7 milhões de anos indica marcha bípede precoce. (Foto: Scott A. Williams / Science Advances)
Fóssil de 7 milhões de anos indica marcha bípede precoce. (Foto: Scott A. Williams / Science Advances)

A origem da marcha bípede é um dos maiores enigmas da evolução humana. Durante décadas, cientistas debateram se um fóssil encontrado no Chade, com cerca de 7 milhões de anos, poderia realmente caminhar sobre duas pernas. 

Agora, uma nova análise detalhada fornece evidências robustas de que esse antigo primata já apresentava adaptações anatômicas essenciais para o bipedalismo, empurrando essa característica fundamental da humanidade para um passado ainda mais remoto.

Um fóssil no centro da evolução humana

O estudo analisou restos fósseis do Sahelanthropus tchadensis, uma espécie descoberta no início dos anos 2000 no deserto de Djurab, na África Central. Embora o crânio já fosse conhecido, a grande controvérsia envolvia o restante do esqueleto, especialmente ulnas e fêmures, fundamentais para interpretar padrões de locomoção.

A nova pesquisa utilizou tecnologia 3D avançada e comparações detalhadas com espécies vivas e fósseis, permitindo avaliar com precisão características associadas ao andar ereto.

Anatomia que revela a marcha ereta

Comparação entre Sahelanthropus, chimpanzé e humano moderno. (Foto: Scott A. Williams / Science Advances)
Comparação entre Sahelanthropus, chimpanzé e humano moderno. (Foto: Scott A. Williams / Science Advances)

A análise identificou sinais claros de bipedalismo funcional, incluindo estruturas até então observadas apenas em hominíneos. Entre os principais achados estão:

  • Presença do tubérculo femoral, local de inserção do ligamento iliofemoral, essencial para estabilizar o quadril durante a marcha ereta
  • Anteversão femoral, uma torção específica do fêmur que orienta as pernas para a frente ao caminhar
  • Configuração do complexo glúteo, responsável por manter o equilíbrio do tronco em posição vertical

Essas adaptações indicam que o Sahelanthropus conseguia se locomover sobre duas pernas de forma eficiente, mesmo mantendo habilidades de escalada.

Entre as árvores e o solo

Apesar do bipedalismo, o Sahelanthropus não se assemelhava aos humanos modernos. O comprimento relativo de seus ossos sugere um estilo de vida misto. Suas pernas eram mais longas do que as de macacos, mas ainda curtas em comparação com humanos atuais, aproximando-se do padrão observado em Australopithecus, um hominídeo posterior e bem documentado.

Essa combinação indica uma fase de transição evolutiva, na qual o andar ereto já estava presente, mas a vida arborícola ainda desempenhava um papel importante na sobrevivência.

Implicações para a história humana

O estudo intitulado “Evidence for Bipedal Locomotion in Sahelanthropus tchadensis”, publicado na revista científica Science Advances, foi conduzido por Scott Williams et al. Os resultados reforçam que o bipedalismo surgiu muito cedo, possivelmente logo após a separação evolutiva entre humanos e chimpanzés.

Essa descoberta sugere que andar sobre duas pernas não foi uma adaptação tardia ligada ao aumento do cérebro, mas uma característica fundamental desde os primórdios da linhagem humana.

As novas evidências posicionam o Sahelanthropus tchadensis como um forte candidato a um dos primeiros hominíneos bípedes, redefinindo o momento em que a humanidade começou a caminhar ereta. Ao revelar que essa adaptação surgiu milhões de anos antes do que se pensava, o estudo lança nova luz sobre os caminhos iniciais da evolução humana.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.