Descoberta aponta novo caminho para tratar o câncer de pâncreas

Novo alvo molecular pode enfraquecer o câncer de pâncreas. (Foto: Pamai's Images via Canva)
Novo alvo molecular pode enfraquecer o câncer de pâncreas. (Foto: Pamai's Images via Canva)

O câncer de pâncreas é conhecido por ser silencioso, avançar rapidamente e responder pouco aos tratamentos disponíveis. Por isso, ele está entre os tipos de câncer com pior prognóstico. Agora, uma nova pesquisa científica aponta que um alvo molecular específico pode abrir caminho para estratégias de tratamento mais eficazes no futuro.

O que torna o câncer de pâncreas tão resistente aos tratamentos?

O tipo mais comum da doença é o adenocarcinoma ductal pancreático (PDAC). Na maioria dos casos, os tratamentos tentam bloquear mutações genéticas já conhecidas, como as do gene KRAS. No entanto, mesmo quando esse alvo é atingido, muitos tumores continuam crescendo.

Isso acontece porque o câncer não depende de apenas um gene. Ele usa mecanismos internos de reforço, que mantêm as células tumorais vivas, resistentes e em constante multiplicação.

O circuito oculto que alimenta o tumor

A nova pesquisa identificou que três genes trabalham juntos para sustentar o câncer pancreático: SRSF1, AURKA e MYC. Eles formam um circuito molecular, no qual um ativa o outro, criando um ciclo contínuo de crescimento do tumor.

Funciona assim:

  • O SRSF1 altera o processamento do material genético do AURKA
  • O AURKA, em níveis elevados, protege o MYC
  • O MYC, por sua vez, aumenta novamente a produção de SRSF1

Esse ciclo mantém o câncer ativo e mais agressivo, mesmo diante de tratamentos convencionais.

Um único alvo com efeito em cadeia

Pesquisa identifica mecanismo que sustenta o câncer de pâncreas. (Foto: Sciencephoto via Canva)
Pesquisa identifica mecanismo que sustenta o câncer de pâncreas. (Foto: Sciencephoto via Canva)

O ponto mais importante da descoberta é que os cientistas conseguiram quebrar esse circuito atacando apenas um alvo. Eles usaram uma molécula chamada oligonucleotídeo antissenso (ASO), desenvolvida para interferir no funcionamento do gene AURKA.

Ao bloquear esse gene, todo o sistema entrou em colapso. As células do câncer perderam sua capacidade de sobreviver e ativaram a apoptose, que é a morte celular programada.

Entre os efeitos observados estão:

  • Queda acentuada da sobrevivência das células tumorais
  • Redução simultânea de três oncogenes importantes
  • Enfraquecimento dos mecanismos de resistência do câncer

O que essa descoberta representa

O estudo foi publicado na revista científica Molecular Cell, com o título “ASOs de troca de splicing direcionados à região 5′ UTR de AURKA colapsam um circuito oncogênico SRSF1-AURKA-MYC no câncer pancreático”, assinado por Alexander J. Kral et al (DOI: 10.1016/j.molcel.2025.12.004).

Embora ainda esteja em fase experimental, essa descoberta muda a forma de pensar o tratamento do câncer pancreático. Em vez de tentar bloquear apenas uma mutação, a ciência começa a buscar maneiras de desmontar redes inteiras que sustentam o tumor.

No futuro, esse tipo de abordagem pode levar a terapias mais inteligentes, precisas e eficazes contra um dos cânceres mais difíceis de combater.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.