Conviver com coceira intensa, inflamação recorrente e crises que afetam o sono faz parte da rotina de milhões de pessoas com dermatite atópica. Em geral, o foco está no desconforto visível na pele. O que passa despercebido é que essa condição pode provocar efeitos silenciosos em outras partes do corpo, inclusive em estruturas internas que não geram sintomas imediatos, como os ossos.
Dermatite atópica é inflamação crônica, não só irritação da pele
A dermatite atópica envolve uma ativação persistente do sistema imunológico. A pele perde parte da sua função de barreira, tornando-se mais vulnerável a inflamações repetidas. Esse processo libera substâncias inflamatórias que não ficam restritas à superfície da pele. Elas circulam pelo organismo e podem interferir em sistemas essenciais, inclusive no metabolismo ósseo.
Como a inflamação interfere na estrutura dos ossos
Os ossos passam por um processo contínuo de remodelação, no qual tecido antigo é reabsorvido enquanto novo tecido é formado. Em condições ideais, esse equilíbrio mantém a densidade e resistência óssea.
Quando há inflamação crônica, esse balanço pode ser alterado. O organismo passa a favorecer mecanismos de perda óssea, reduzindo a formação de tecido novo. Com o tempo, isso pode resultar em ossos mais frágeis, maior risco de osteoporose e aumento da probabilidade de fraturas, mesmo em situações rotineiras.
O que os dados científicos revelam sobre essa relação

Essa conexão ficou mais clara após uma análise publicada em 2025 na revista científica Annals of Medicine, que avaliou dados de estudos de coorte acompanhando milhares de pessoas ao longo do tempo.
O trabalho, intitulado Atopic dermatitis and the risk of osteoporosis and fractures: a meta-analysis of cohort studies, teve como autor principal Hongfei Liu e identificou que indivíduos com dermatite atópica apresentam risco significativamente maior de osteoporose e fraturas quando comparados à população geral (DOI: 10.1080/07853890.2025.2607193).
Os resultados mostraram que o risco é ainda mais elevado em casos de dermatite moderada a grave, com destaque para fraturas vertebrais e dos membros inferiores, regiões fundamentais para a mobilidade e estabilidade corporal.
Esses achados reforçam que a dermatite atópica deve ser entendida como uma condição inflamatória sistêmica, e não apenas um problema localizado na pele.
O que isso muda na prática para quem convive com dermatite
Ter dermatite atópica não significa automaticamente desenvolver osteoporose. No entanto, os dados indicam a necessidade de atenção ampliada à saúde óssea, especialmente quando outros fatores de risco estão presentes, como sedentarismo, baixa ingestão de cálcio, deficiência de vitamina D ou histórico familiar de fraturas.
Algumas medidas simples podem ajudar a reduzir esse risco:
- manter uma alimentação rica em cálcio e vitamina D
- praticar atividade física regular, incluindo exercícios com impacto leve
- controlar adequadamente a inflamação da pele
- avaliar a densidade óssea quando houver fatores de risco adicionais
Esses cuidados contribuem para preservar a força dos ossos ao longo do tempo e reduzir complicações futuras.

