Um dos maiores desafios da ciência moderna é compreender por que a depressão afeta pessoas de maneiras tão diferentes. Um estudo genético global, considerado o mais amplo e diverso já realizado sobre o tema, trouxe respostas inéditas. A pesquisa identificou cerca de 700 variações genéticas associadas à depressão, muitas delas nunca antes descritas, abrindo novos caminhos para prevenção, diagnóstico e tratamento da doença.
Publicado na revista científica Cell, o estudo “Trans-ancestry genome-wide study of depression identifies 697 associations implicating cell types and pharmacotherapies” analisou dados genéticos de mais de 5 milhões de indivíduos, distribuídos em 29 países e pertencentes a diversas origens étnicas. Entre os autores estão Pedro Mario Pan, Sintia Belangero, Giovanni Salum, Marcos Santoro, Vanessa Ota e Adrielle Martins, pesquisadores ligados à Universidade Federal de São Paulo e a instituições parceiras.
Como a genética ajuda a explicar a depressão
A depressão é um transtorno complexo, influenciado por fatores biológicos, psicológicos e sociais. No entanto, até recentemente, grande parte dos estudos genéticos se concentrava em populações de ancestralidade europeia, o que limitava a aplicação clínica dos resultados em outras etnias.
Neste novo trabalho, cerca de 25% dos participantes tinham ancestralidade não europeia, incluindo indivíduos geneticamente miscigenados. Essa diversidade permitiu identificar quase 300 variações genéticas inéditas, ampliando significativamente o mapa genético da depressão.
O que essas variações revelam sobre o cérebro

As análises mostraram que muitas das variações genéticas estão associadas a neurônios localizados em regiões cerebrais responsáveis pelo controle das emoções, do humor e da resposta ao estresse. Isso reforça a ideia de que a depressão não é apenas uma condição emocional, mas envolve alterações biológicas mensuráveis no funcionamento cerebral.
Além disso, os dados apontam para vias moleculares específicas, que podem se tornar alvos diretos de novas terapias. Esse avanço ajuda a explicar por que alguns pacientes respondem melhor a determinados tratamentos do que outros.
Possíveis impactos nos tratamentos
Um dos achados mais promissores é a possibilidade de reaproveitar medicamentos já existentes, originalmente desenvolvidos para outras condições, como dor crônica e distúrbios do sono. Esses fármacos atuam em mecanismos semelhantes aos identificados nas variações genéticas ligadas à depressão.
Apesar disso, os pesquisadores destacam que ainda são necessários testes clínicos adicionais antes que essas abordagens possam ser aplicadas de forma segura e eficaz na prática médica.
Inclusão científica e avanços futuros
A participação da Brazilian High-Risk Cohort, um dos maiores estudos longitudinais em saúde mental da América Latina, foi fundamental para os resultados. O projeto acompanha crianças, adolescentes e suas famílias há mais de uma década, reunindo dados psicológicos, sociais, biológicos e genéticos.
Com esse banco de informações robusto, os cientistas agora conseguem:
- Estimar o risco genético individual para depressão
- Desenvolver estratégias de prevenção mais personalizadas
- Reduzir desigualdades históricas na pesquisa em saúde mental
O estudo representa um passo decisivo para transformar descobertas genéticas em cuidados mais eficazes, acessíveis e inclusivos, beneficiando milhões de pessoas ao redor do mundo.

