Daltonismo pode impedir a percepção de sinais iniciais do câncer de bexiga

Daltonismo pode dificultar perceber sangue na urina. (Foto: Africa Images via Canva)
Daltonismo pode dificultar perceber sangue na urina. (Foto: Africa Images via Canva)

O daltonismo, ou deficiência na visão de cores, é mais do que uma dificuldade para diferenciar vermelho e verde. Uma pesquisa recente publicada na Nature Health (2026) indica que pessoas daltônicas podem enfrentar um risco significativamente maior de mortalidade quando diagnosticadas com câncer de bexiga. O motivo está na dificuldade de identificar sangue na urina, um dos primeiros sinais da doença.

Detectar precocemente sintomas visuais é crucial. Para indivíduos com visão normal, perceber sangue na urina frequentemente leva a uma consulta médica rápida, aumentando as chances de diagnóstico precoce. No entanto, para pessoas com daltonismo, essa alteração de cor pode passar despercebida, permitindo que o câncer evolua sem tratamento imediato.

Dados que revelam a gravidade

Pesquisadores analisaram milhões de registros de saúde usando a plataforma TriNetX, que compila dados eletrônicos de pacientes de todo o mundo. Entre cerca de 100 milhões de registros nos Estados Unidos, foram identificados 135 casos de pacientes com daltonismo e câncer de bexiga. Comparando com indivíduos com visão normal, observou-se que o risco de mortalidade desses pacientes daltônicos era 52% maior ao longo de 20 anos.

Alguns fatores explicam essa diferença:

  • O câncer de bexiga frequentemente se manifesta apenas com sangue na urina, sem dor.
  • Pacientes daltônicos podem demorar a procurar atendimento, atrasando o diagnóstico.
  • Estágios avançados da doença tornam o tratamento mais complexo e as taxas de sobrevivência menores.

Por outro lado, estudos sobre câncer colorretal não mostraram diferença significativa entre daltônicos e não daltônicos. Isso se deve ao fato de que esse tipo de câncer apresenta múltiplos sinais iniciais, como dor abdominal e alterações nos hábitos intestinais, além de rastreios recomendados que aumentam a detecção precoce.

A importância da conscientização

Esses achados reforçam a necessidade de exames de rotina, especialmente para pessoas com daltonismo. Exames de urina regulares e acompanhamento médico contínuo podem compensar a dificuldade em identificar alterações visuais. Outra estratégia útil é envolver familiares ou parceiros para observar mudanças que possam passar despercebidas.

Além disso, os resultados destacam a importância de que médicos estejam atentos à deficiência na visão de cores como um fator que pode afetar a detecção precoce de doenças. Questionários de triagem e orientações personalizadas podem ajudar a reduzir o impacto deste risco silencioso.

Daltonismo é mais comum do que se imagina

Cerca de 1 em cada 12 homens e 1 em cada 200 mulheres apresenta algum grau de daltonismo. Essa condição, muitas vezes subestimada, combina com o fato de que o câncer de bexiga é mais frequente em homens, aumentando a relevância da conscientização para essa população específica.

O estudo evidencia que identificar precocemente os sinais de alerta, mesmo em condições que afetam a percepção visual, pode salvar vidas e melhorar significativamente as taxas de sobrevivência.

*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-RJ: 13912).

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn