Tomar corticoide por muito tempo pode trazer consequências para a saúde

O uso prolongado pode provocar diferentes efeitos adversos. (Imagem: Pexels)

Os corticoides são medicamentos utilizados para controlar inflamações, alergias e doenças que envolvem alterações no funcionamento do sistema imunológico. Apesar de serem importantes em diferentes tratamentos, muitas pessoas têm dúvidas sobre os riscos associados a essas substâncias. Afinal, corticoides fazem mal? Quais são os efeitos colaterais e o que acontece quando o medicamento é utilizado por muito tempo?

A resposta depende de fatores como o tipo de corticoide, a dose, a duração do tratamento e as condições de saúde do paciente. Quando utilizados corretamente e pelo período indicado, esses medicamentos podem trazer benefícios importantes. Entretanto, o uso prolongado ou em doses elevadas aumenta o risco de reações adversas.

Corticoides fazem mal à saúde?

Os corticoides não são necessariamente prejudiciais. Eles imitam a ação do cortisol, um hormônio produzido naturalmente pelas glândulas suprarrenais, que participa da regulação da resposta inflamatória, do metabolismo e da atividade do sistema imunológico.

Medicamentos como prednisona, prednisolona, dexametasona e betametasona pertencem a esse grupo. Eles podem ser prescritos para tratar doenças respiratórias, alergias graves, problemas dermatológicos, doenças reumatológicas e condições autoimunes, entre outras situações.

O problema surge principalmente quando há exposição excessiva ao medicamento. Doses elevadas e tratamentos prolongados podem interferir em diferentes funções do organismo, provocando alterações metabólicas, cardiovasculares, ósseas e hormonais.

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Por isso, o corticoide deve ser utilizado na menor dose eficaz e pelo tempo necessário, conforme a avaliação médica.

Quais são os efeitos colaterais dos corticoides?

Os efeitos adversos variam conforme a substância, a dose e a duração do tratamento. Alguns aparecem mesmo após períodos relativamente curtos, enquanto outros estão mais relacionados ao uso contínuo.

Entre os efeitos colaterais mais conhecidos estão:

  • Ganho de peso: pode ocorrer pelo aumento do apetite e pela retenção de líquidos, especialmente em tratamentos prolongados.
  • Aumento da glicose no sangue: os corticoides podem dificultar a ação da insulina e favorecer a elevação da glicemia.
  • Pressão arterial elevada: algumas substâncias podem favorecer a retenção de sódio e água, contribuindo para o aumento da pressão.
  • Insônia e alterações de humor: podem provocar agitação, irritabilidade, ansiedade e dificuldade para dormir.
  • Problemas ósseos: o uso prolongado pode reduzir a formação óssea, aumentar a perda de massa óssea e favorecer a osteoporose.
  • Desconfortos gastrointestinais: algumas pessoas apresentam azia e irritação digestiva, principalmente quando existem outros fatores de risco ou medicamentos associados.
  • Maior risco de infecções: como reduzem a atividade do sistema imunológico, os corticoides podem dificultar a resposta do organismo contra microrganismos.

Nem todas as pessoas apresentam esses efeitos. A intensidade também pode variar de acordo com a resposta individual e as características do tratamento.

O que acontece quando se toma corticoide por muito tempo?

Conheça os riscos e cuidados essenciais no uso prolongado de corticoides. (Imagem ilustrativa: Fala Ciência)

O uso prolongado merece atenção porque pode provocar alterações que se acumulam ao longo do tratamento.

Uma das consequências possíveis é a síndrome de Cushing induzida por medicamentos. Ela acontece quando existe exposição excessiva aos efeitos dos glicocorticoides e pode provocar rosto mais arredondado, acúmulo de gordura na região abdominal e na parte posterior do pescoço, aumento de peso, estrias e fraqueza muscular.

Outra consequência é a supressão das glândulas suprarrenais. Como o organismo recebe corticoides de uma fonte externa, pode diminuir a produção natural de cortisol.

Isso significa que a interrupção repentina do medicamento, especialmente após tratamentos prolongados ou com doses elevadas, pode causar insuficiência adrenal. Entre os sintomas estão fraqueza intensa, náuseas, tontura, queda da pressão arterial e, em situações graves, risco de crise adrenal.

Por esse motivo, alguns tratamentos precisam ser encerrados gradualmente, com redução da dose orientada pelo médico.

Estudo investigou os riscos dos corticoides

Uma pesquisa publicada em 1º de agosto de 2026 na revista científica JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery, liderada pelo pesquisador Seojin Moon, investigou a relação entre o uso de corticoides orais e o desenvolvimento de problemas de saúde em pessoas com rinossinusite crônica e pólipos nasais.

O estudo observacional utilizou dados de saúde da Coreia do Sul e identificou 165.361 pacientes que receberam pelo menos uma prescrição de corticoide oral. Na análise, os pesquisadores avaliaram como a duração do tratamento e a quantidade acumulada do medicamento estavam relacionadas ao aparecimento de efeitos adversos.

Os resultados mostraram que a exposição elevada, superior a 90 dias por ano, esteve associada a um aumento significativo do risco de necrose óssea avascular, osteoporose e pneumonia.

Além disso, uma dose acumulada superior a 1 grama de equivalentes de prednisolona por ano foi associada a um risco 23% maior de eventos adversos sistêmicos em comparação com exposições menores.

Os pesquisadores também identificaram associações com alterações como diabetes tipo 2, hipertensão, insuficiência cardíaca e problemas relacionados ao metabolismo das gorduras.

O trabalho reforça a importância de avaliar a quantidade e o tempo de exposição aos corticoides, especialmente quando o tratamento precisa ser repetido ou mantido por períodos prolongados.

É importante destacar que a pesquisa foi observacional e envolveu pacientes com uma condição específica. Portanto, os resultados não significam que todas as pessoas que utilizam corticoides desenvolverão essas complicações.

Corticoide em pomada, comprimido ou inalação faz mal da mesma forma?

Não. A forma de administração influencia diretamente a quantidade de medicamento que chega à circulação sanguínea e, consequentemente, o risco de efeitos sistêmicos.

Os corticoides orais, como prednisona e prednisolona, são absorvidos pelo organismo e podem provocar efeitos em diferentes órgãos.

Já os corticoides inalatórios, utilizados no tratamento de doenças como a asma, atuam principalmente nas vias respiratórias. Seus efeitos adversos mais comuns incluem rouquidão e candidíase oral, embora doses elevadas também possam provocar efeitos sistêmicos.

Os corticoides nasais, utilizados em casos de rinite alérgica, podem causar irritação, ressecamento e sangramento nasal.

Nas apresentações em pomada ou creme, os efeitos geralmente ficam mais concentrados na região de aplicação. Entretanto, o uso excessivo, em áreas extensas, sob curativos ou em regiões de pele fina pode aumentar a absorção e provocar complicações, como afinamento da pele.

Portanto, não é correto considerar que todas as apresentações apresentam os mesmos riscos.

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Como usar corticoides com segurança?

O primeiro cuidado é utilizar o medicamento somente com indicação profissional, respeitando a dose, a frequência e o período estabelecidos na receita.

Também é importante não repetir tratamentos por conta própria, mesmo que os sintomas sejam semelhantes aos de uma crise anterior.

Pessoas que utilizam corticoides por períodos prolongados podem precisar de acompanhamento da pressão arterial, glicemia, saúde óssea e sinais de infecção, conforme os fatores de risco individuais.

Outro ponto importante é não interromper abruptamente tratamentos prolongados sem orientação médica. A retirada pode exigir uma redução progressiva da dose para permitir que o organismo retome a produção natural de cortisol.

Aviso importante: Este conteúdo tem caráter informativo e educacional, não substituindo, em hipótese alguma, a avaliação, diagnóstico ou tratamento de um profissional de saúde qualificado.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica e editora de saúde do Portal Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação na internet, garantindo que o conteúdo seja sempre baseado em rigor técnico, empatia e evidências científicas de qualidade. Ver perfil no LinkedIn