Correr distâncias extremas pode impactar a saúde do sangue; entenda

Corridas longas elevam estresse oxidativo. (Foto: Alamy via Canva)
Corridas longas elevam estresse oxidativo. (Foto: Alamy via Canva)

Ultramaratonas são sinônimo de superação. No entanto, correr distâncias muito além da maratona tradicional pode provocar efeitos invisíveis no organismo. Um novo estudo indica que provas de ultra resistência podem acelerar o envelhecimento dos glóbulos vermelhos, células essenciais para o transporte de oxigênio.

A pesquisa foi publicada em 2026 na revista científica Blood Red Cells, sob o título A corrida de trilha de longa distância induz a oxidação de proteínas, lipídios e purinas associadas à inflamação em glóbulos vermelhos, liderada por Travis Nemkov (DOI: 10.1016/j.brci.2026.100055). O trabalho analisou alterações celulares após competições de endurance extremo e trouxe achados relevantes para a medicina esportiva e para a saúde em geral.

O que acontece com o sangue após corridas extremas

Os glóbulos vermelhos, também chamados de hemácias, precisam ser altamente flexíveis. Essa característica permite que atravessem capilares microscópicos enquanto distribuem oxigênio e removem resíduos metabólicos.

Após provas longas, porém, os pesquisadores observaram que essas células se tornam menos maleáveis. Essa perda de flexibilidade pode comprometer sua eficiência circulatória. Além disso, foram identificados sinais de:

Estresse oxidativo elevado
• Oxidação de proteínas e lipídios
• Inflamação sistêmica
• Indícios de envelhecimento celular acelerado

Esses efeitos foram atribuídos tanto ao estresse mecânico da circulação intensa quanto ao impacto metabólico prolongado da atividade extrema.

Quanto maior a distância, maior o impacto

O estudo avaliou 23 atletas que participaram de duas provas exigentes: uma corrida de 40 quilômetros e outra de 171 quilômetros. Amostras de sangue foram coletadas antes e imediatamente após as competições.

Embora as alterações já fossem perceptíveis após a prova mais curta, os danos celulares foram significativamente mais acentuados na distância maior. Isso sugere que existe um ponto crítico entre a maratona tradicional e a ultramaratona em que o estresse hematológico se intensifica.

Além disso, pesquisas anteriores já haviam associado ultramaratonas à hemólise, processo de destruição de glóbulos vermelhos que pode contribuir para quadros de anemia em atletas de endurance.

Implicações para saúde e desempenho

Ainda não está claro quanto tempo o organismo leva para reverter essas alterações nem se há consequências cumulativas a longo prazo. Entretanto, os achados reforçam que exercício extremo nem sempre significa benefício proporcional.

Isso não invalida a prática esportiva. Pelo contrário, a atividade física regular é amplamente reconhecida como protetora da saúde cardiovascular e metabólica. Contudo, volumes e intensidades extremos podem gerar:

• Sobrecarga inflamatória
• Maior degradação celular
• Potencial impacto no desempenho futuro

Compreender esses mecanismos pode ajudar na elaboração de estratégias mais seguras de treinamento, nutrição e recuperação.

Conexão com a medicina transfusional

Curiosamente, os padrões de envelhecimento observados nas hemácias dos atletas se assemelham às alterações vistas em bolsas de sangue armazenadas para transfusão. O sangue estocado começa a perder qualidade após algumas semanas, em parte devido a processos oxidativos semelhantes.

Portanto, o estudo também abre portas para avanços na conservação de sangue, ampliando o entendimento sobre como preservar melhor a integridade celular.

O equilíbrio entre desempenho e proteção celular

As hemácias são células resistentes, mas altamente sensíveis ao estresse mecânico e oxidativo. O desafio científico agora é identificar como otimizar o desempenho esportivo sem comprometer a saúde celular.

Em síntese, ultramaratonas representam um feito atlético impressionante. No entanto, seus efeitos biológicos mostram que o corpo humano possui limites fisiológicos claros. Entender esses limites é fundamental para promover longevidade, rendimento sustentável e segurança no esporte de alta performance.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn