Coração humano surpreende cientistas ao se regenerar após ataque cardíaco

Estudo revela regeneração celular no coração humano. (Foto: Pixelshot via Canva)
Estudo revela regeneração celular no coração humano. (Foto: Pixelshot via Canva)

Durante décadas, a medicina acreditou que os danos causados por um ataque cardíaco eram, em grande parte, permanentes. A perda de oxigênio e nutrientes durante a isquemia leva à morte de milhões de cardiomiócitos, as células responsáveis pela contração do coração, comprometendo de forma duradoura sua função. No entanto, evidências científicas recentes começam a desafiar essa visão clássica e abrem um novo capítulo na cardiologia moderna.

Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Circulation Research, intitulado “The human heart intrinsically increases cardiomyocyte mitosis following myocardial infarction”, liderado por Robert D. Hume, trouxe dados inéditos ao demonstrar que o coração humano é capaz de ativar processos naturais de regeneração celular após um infarto (DOI: 10.1161/CIRCRESAHA.125.327486).

Regeneração celular após isquemia: o que foi observado

A pesquisa analisou amostras de tecido cardíaco humano obtidas durante cirurgias de revascularização miocárdica realizadas após infartos. Ao comparar áreas saudáveis e regiões previamente afetadas pela isquemia, os cientistas identificaram um aumento significativo da mitose dos cardiomiócitos, indicando que novas células musculares cardíacas estavam sendo formadas.

Além disso, foram detectadas proteínas reguladoras da regeneração já conhecidas em modelos animais, agora confirmadas também em tecidos humanos. Esse achado sugere que o mecanismo regenerativo não é exclusivo de outras espécies, mas faz parte da resposta biológica do próprio coração humano ao dano isquêmico.

Descoberta muda o entendimento das doenças cardíacas

A insuficiência cardíaca é uma das principais consequências tardias do infarto e resulta, em grande parte, da perda irreversível de músculo cardíaco. A identificação de um processo endógeno de regeneração muda esse paradigma e cria novas possibilidades terapêuticas.

Compreender como esse mecanismo é ativado pode permitir, no futuro, o desenvolvimento de estratégias para:

  • Estimular a regeneração cardíaca natural
  • Reduzir a formação de tecido cicatricial
  • Preservar a função de bombeamento do coração
  • Diminuir o risco de insuficiência cardíaca crônica

O caminho para novas terapias regenerativas

O estudo reforça uma tendência crescente na cardiologia regenerativa, que busca modular o ambiente celular do coração após o infarto. Pesquisas recentes têm explorado abordagens combinadas que reduzem a inflamação excessiva e favorecem a divisão celular saudável.

Ao integrar os dados humanos apresentados em Circulation Research com avanços experimentais anteriores, a ciência avança rumo a terapias que não apenas tratam sintomas, mas promovem a recuperação estrutural do coração.

Embora ainda sejam necessários estudos clínicos de longo prazo, os achados indicam que o coração humano possui uma capacidade regenerativa maior do que se imaginava. Essa descoberta redefine o entendimento sobre a recuperação pós-infarto e oferece esperança real para milhões de pessoas afetadas por doenças cardiovasculares em todo o mundo.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.