Computadores quânticos podem estar “esquecendo” seus próprios cálculos, diz estudo

Ruído quântico faz computadores perderem parte dos cálculos realizados (Imagem: PhonlamaiPhoto's Images via Canva)
Ruído quântico faz computadores perderem parte dos cálculos realizados (Imagem: PhonlamaiPhoto's Images via Canva)

A promessa dos computadores quânticos sempre esteve ligada à capacidade de resolver problemas extremamente complexos. No entanto, uma nova pesquisa indica um limite inesperado: essas máquinas podem estar, na prática, “esquecendo” parte significativa do próprio processamento. Esse fenômeno está relacionado ao chamado ruído quântico, um dos maiores desafios atuais da área. Vale destacar os principais pontos da descoberta:

  • O ruído quântico afeta cada etapa do processamento;
  • As primeiras operações perdem influência ao longo do tempo;
  • Apenas as camadas finais determinam o resultado;
  • Circuitos complexos acabam se comportando como mais simples.

O ruído invisível que compromete o desempenho

Diferentemente dos computadores clássicos, os sistemas quânticos utilizam qubits, que são extremamente sensíveis a interferências externas. Assim, pequenas perturbações se acumulam ao longo das operações, degradando progressivamente a informação.

Esse processo, conhecido como ruído, funciona como um filtro que “apaga” partes do cálculo. Como consequência, mesmo circuitos longos e sofisticados podem perder grande parte de sua eficiência real.

Mais etapas nem sempre significam mais poder

Estudo revela limite inesperado na eficiência da computação quântica (Imagem: PhonlamaiPhoto's Images via Canva)
Estudo revela limite inesperado na eficiência da computação quântica (Imagem: PhonlamaiPhoto’s Images via Canva)

Um dos resultados mais relevantes do estudo é a constatação de que aumentar a profundidade dos circuitos nem sempre melhora o desempenho. Isso ocorre porque as informações das etapas iniciais vão sendo diluídas até praticamente desaparecerem.

Na prática, isso significa que circuitos considerados avançados passam a agir como versões mais rasas e limitadas, contrariando a expectativa de ganho progressivo de capacidade.

Por que ainda é possível ajustar esses sistemas?

Apesar dessas limitações, os computadores quânticos ainda podem ser “treinados” para tarefas específicas. Isso acontece porque as camadas finais permanecem ativas e influentes, permitindo ajustes nos resultados.

No entanto, esse comportamento pode levar a uma interpretação equivocada. A aparente facilidade de ajuste pode estar ligada justamente à redução da complexidade efetiva, causada pelo ruído.

O que isso significa para o futuro da computação quântica

O estudo, publicado na revista Nature Physics e conduzido por pesquisadores como Armando Angrisani, Yihui Quek e Daniel Stilck França, aponta para um redirecionamento estratégico na área. Em vez de apenas aumentar a complexidade, o avanço da tecnologia deve priorizar:

  • Redução do ruído quântico
  • Desenvolvimento de sistemas mais robustos
  • Criação de algoritmos adaptados às limitações atuais

Portanto, o desafio não é apenas tornar os computadores quânticos mais poderosos, mas garantir que eles consigam manter a informação ao longo do processamento, um passo essencial para transformar potencial em aplicação real.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes