Como humanos sobrevivem em Yakutia, onde −71°C é normal

Vida no frio extremo: como humanos enfrentam o inverno mais rigoroso. (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)
Vida no frio extremo: como humanos enfrentam o inverno mais rigoroso. (Imagem: Getty Images/ Canva Pro)

Imagine uma região onde −71°C é considerado apenas mais um dia de inverno. Essa é a realidade de Yakutia, no norte da Sibéria, um dos lugares mais frios do planeta habitados por seres humanos. Nesse cenário, a sobrevivência depende de planejamento detalhado, engenharia adaptativa e rotinas comunitárias que tornam cada ação, da obtenção de água à locomoção diária, uma estratégia vital.

A água potável, por exemplo, não flui por encanamentos, que simplesmente congelariam e se romperiam. Em vez disso, os moradores coletam blocos de gelo dos rios no início do inverno, armazenando-os próximos às residências e derretendo-os conforme a necessidade. Essa prática garante autossuficiência hídrica mesmo sem infraestrutura urbana convencional.

Estratégias essenciais para enfrentar o frio extremo

A vida em Yakutia depende de uma combinação de estratégias de vestimenta, alimentação e cooperação social, que tornam possível sobreviver aos invernos extremos da região. Os moradores utilizam roupas em múltiplas camadas, com proteção reforçada nos joelhos e no rosto, evitando necrose causada pelo frio intenso. 

A alimentação hipercalórica inclui panquecas de trigo sarraceno, carnes e peixes locais, além de ovas ricas em gorduras, garantindo energia suficiente para enfrentar o frio. A educação é adaptada ao clima, e as crianças só frequentam a escola quando a temperatura está acima de −50°C, protegendo sua saúde. Por fim, a cooperação comunitária, como a pesca Munha no gelo, garante que os alimentos sejam divididos de forma justa entre todos, incluindo idosos e pessoas doentes. Essa combinação de práticas físicas e sociais mantém a comunidade segura, nutrida e unida durante os longos meses de inverno rigoroso.

  • Roupas em múltiplas camadas com reforço em joelhos e rosto;
  • Alimentação hipercalórica para manter energia e calor corporal;
  • Educação adaptada: crianças só frequentam escola acima de −50°C;
  • Cooperação comunitária: divisão justa de alimentos e pesca Munha.

Casas e cultura que resistem ao frio

As residências são construídas quase inteiramente de madeira e exigem cerca de 60 m³ de lenha por temporada para manter o interior habitável. Frestas e portas são vedadas com neve ou materiais isolantes, enquanto fornalhas permanecem acesas ininterruptamente.

Tradições culturais, como a forja de facas e o uso do Vargan, um instrumento musical local, continuam vivas, mostrando como cultura e tecnologia de sobrevivência coexistem em condições extremas.

Estudar a vida nessa região extrema revela como engenharia doméstica, nutrição estratégica e cooperação social são fundamentais para enfrentar os limites do frio. Yakutia ensina lições valiosas sobre resiliência, planejamento e respeito à natureza, servindo de exemplo para comunidades que enfrentam ambientes desafiadores.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.