Durante décadas, os transtornos psiquiátricos foram tratados como condições isoladas, cada uma com suas próprias causas e mecanismos. No entanto, uma nova pesquisa de grande escala desafia essa visão tradicional ao revelar que diversas doenças mentais podem compartilhar a mesma base genética.
O estudo indica que transtornos aparentemente distintos podem nascer de mecanismos biológicos comuns, abrindo caminho para uma nova forma de compreender, classificar e tratar a saúde mental.
Um novo olhar sobre a genética da saúde mental
Publicado na revista científica Nature, o estudo intitulado “Genomic factors underlying psychiatric disorders”, liderado por Andrew Grotzinger, analisou dados genéticos de mais de 1 milhão de pessoas. A investigação representa a maior análise genética já realizada na psiquiatria.
Os resultados mostram que a maioria das variantes genéticas associadas aos transtornos psiquiátricos não é exclusiva de uma única condição, mas aparece em múltiplos diagnósticos. Isso sugere que diferentes doenças mentais podem ser manifestações distintas de processos biológicos compartilhados.
Cinco assinaturas genéticas explicam 14 transtornos

A partir da sobreposição genética observada, os pesquisadores identificaram cinco grandes fatores genômicos, capazes de agrupar 14 transtornos psiquiátricos:
- Compulsivo: anorexia nervosa, transtorno obsessivo compulsivo e síndrome de Tourette
- Neurodesenvolvimento: autismo e TDAH
- Internalização: depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático
- Uso de substâncias: dependência de álcool, nicotina, cannabis e opioides
- Esquizofrenia bipolaridade: esquizofrenia e transtorno bipolar
Esses grupos não foram definidos pelos sintomas, mas sim pelo perfil genético compartilhado, o que representa uma mudança profunda na forma de compreender essas condições.
O que acontece no cérebro em cada grupo
Cada fator genético apresentou um padrão biológico específico no cérebro. Os transtornos ligados ao fator esquizofrenia bipolaridade, por exemplo, mostraram forte atividade em neurônios excitatórios, especialmente em regiões associadas à percepção da realidade.
Já os transtornos do grupo de internalização, como depressão e ansiedade, estiveram mais relacionados à glia, células de suporte cerebral envolvidas na regulação imunológica e na manutenção das conexões neurais. Isso indica que, em alguns transtornos, o problema pode estar menos nos neurônios e mais no ambiente que os sustenta.
Genes não determinam tudo
Outro achado relevante é que muitas variantes genéticas associadas a transtornos psiquiátricos também se relacionam a características como inteligência, padrões de sono, personalidade, criatividade e comportamento social. Isso reforça a ideia de que a genética atua em um continuum, e não como um destino fixo.
Além disso, o estudo destaca que fatores ambientais, como estresse, traumas e condições de vida, desempenham papel decisivo na ativação ou não dessas predisposições genéticas.
Implicações para diagnóstico e tratamento
Ao demonstrar que vários transtornos compartilham a mesma base biológica, a pesquisa sugere que futuros tratamentos poderão agir sobre mecanismos comuns, beneficiando múltiplas condições ao mesmo tempo. Essa abordagem pode revolucionar a psiquiatria, tornando terapias mais eficazes, personalizadas e integradas.
Os resultados reforçam que a saúde mental não deve ser vista como um conjunto de doenças isoladas, mas como expressões diferentes de redes biológicas interligadas. Embora a genética não explique tudo, compreender essas conexões representa um passo decisivo rumo a uma psiquiatria mais precisa, humana e baseada na biologia real do cérebro.

