Cientistas investigam como o cérebro ajuda pessoas a tomar decisões em grupo

Atividade neural do cérebro na tomada de decisões e na cooperação social (Imagem: Getty images)

A amígdala cerebral pode desempenhar um papel importante na maneira como as pessoas avaliam a confiança e decidem cooperar. Um estudo publicado em 2026 na revista científica Nature Neuroscience investigou como o cérebro prevê o comportamento de outras pessoas e coordena decisões em situações de incerteza.

Liderada por Jun Ni, a pesquisa identificou padrões de atividade neural semelhantes entre parceiros durante episódios de cooperação mútua. Os resultados ajudam a compreender como o cérebro utiliza experiências anteriores para antecipar escolhas e orientar decisões sociais.

Qual é a relação entre a amígdala e a cooperação?

A amígdala é uma estrutura localizada profundamente nos lobos temporais do cérebro. Ela participa da aprendizagem, da avaliação de estímulos relevantes e do processamento de informações relacionadas a emoções e situações sociais.

Durante uma interação, uma pessoa pode considerar se o parceiro costuma cumprir acordos ou se suas decisões anteriores indicam que é confiável. Essas informações ajudam a estimar o que ele poderá fazer em seguida.

O estudo investigou como a atividade da amígdala participa desse processo e como as previsões sobre o comportamento alheio se relacionam com as decisões individuais.

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Como os pesquisadores investigaram esse mecanismo?

Os cientistas utilizaram registros simultâneos de atividade elétrica cerebral em duplas de pacientes com epilepsia que participaram de um experimento baseado no dilema do prisioneiro.

Nesse jogo, cada participante escolhia repetidamente entre cooperar ou não cooperar. As decisões envolviam incertezas sobre as intenções do parceiro e possíveis consequências para ambos.

Ao comparar os registros cerebrais dos participantes, os pesquisadores investigaram como os padrões neurais mudavam durante a cooperação.

O que significa o alinhamento entre dois cérebros?

Os pesquisadores identificaram o chamado alinhamento representacional intercerebral da amígdala, ou IBRA. O fenômeno corresponde à semelhança entre padrões detalhados de atividade neural registrados nos dois participantes.

Esse alinhamento apareceu seletivamente durante a cooperação mútua e ajudou a prever os resultados das interações em cada rodada.

Isso não significa que duas pessoas passem a pensar da mesma maneira. O resultado indica que determinados padrões de atividade cerebral podem apresentar semelhanças durante situações específicas de coordenação social.

Como o cérebro prevê o comportamento de outra pessoa?

Ilustração médica mostrando o cérebro humano e o sistema límbico destacado em laranja (Imagem: Getty images)

A pesquisa identificou uma sequência de processamento denominada cascata de simulação para tomada de decisão.

Primeiro, o cérebro utiliza o histórico da interação para estimar a probabilidade de que o parceiro coopere. Depois, essa previsão contribui para orientar a própria escolha.

Os pesquisadores observaram que alterações nas oscilações elétricas da amígdala acompanhavam essas estimativas. Também identificaram uma relação entre oscilações teta e gama, associada à integração entre a previsão do comportamento alheio e a decisão individual.

Os resultados sugerem que antecipar as intenções de outra pessoa pode ajudar o cérebro a preparar uma resposta coordenada.

Por que algumas pessoas cooperam mais facilmente?

O estudo também identificou diferenças entre estratégias de cooperação. Os cooperadores condicionais ajustavam suas escolhas ao comportamento observado no parceiro. Já os cooperadores incondicionais demonstravam maior disposição para cooperar mesmo diante de incertezas.

Esses resultados indicam que a cooperação pode depender tanto do acompanhamento das ações alheias quanto da disposição individual para assumir riscos sociais.

O que essa descoberta significa para a neurociência?

A pesquisa amplia a compreensão sobre como o cérebro participa das relações sociais. Em vez de tratar a tomada de decisão como um processo exclusivamente individual, os resultados destacam a importância das expectativas sobre outras pessoas.

Entretanto, o estudo envolveu duplas de pacientes com epilepsia submetidos a registros intracranianos por razões clínicas. Por isso, os resultados não devem ser generalizados automaticamente para todas as pessoas. Além disso, a associação entre alinhamento neural e cooperação não demonstra, por si só, uma relação direta de causa e efeito.

A descoberta reforça que cooperar envolve avaliar experiências anteriores, prever o comportamento de outras pessoas e ajustar as próprias decisões. A amígdala pode participar dessa dinâmica, ajudando o cérebro a lidar com a incerteza presente nas interações sociais.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com sólida experiência em pesquisa acadêmica de ponta, é coautor de um estudo internacional sobre neuroproteção publicado no renomado Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Como editor e fundador do Portal Fala Ciência, sua missão é combater a desinformação, traduzindo descobertas complexas em conhecimento jornalístico acessível, transparente e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes