Cientistas ensinam bactérias do intestino a produzir compostos ligados à longevidade

Bactérias do intestino podem estimular envelhecimento saudável. (Foto: TrueCreatives via Canva)
Bactérias do intestino podem estimular envelhecimento saudável. (Foto: TrueCreatives via Canva)

Envelhecer com mais saúde pode depender menos do próprio corpo humano e mais dos microrganismos que vivem dentro dele. Uma nova pesquisa revelou que é possível estimular bactérias intestinais a produzirem substâncias associadas à longevidade, abrindo caminho para uma estratégia inovadora no combate aos efeitos do envelhecimento.

O estudo demonstra que, em vez de agir diretamente sobre células humanas, é possível ativar a microbiota intestinal como aliada da saúde, transformando essas bactérias em verdadeiras fábricas naturais de compostos benéficos.

O intestino como centro do envelhecimento saudável

O intestino abriga trilhões de bactérias que participam ativamente do metabolismo, da imunidade e do equilíbrio hormonal. Nos últimos anos, a ciência vem mostrando que essas bactérias também influenciam como o organismo envelhece.

Pesquisadores identificaram que um composto chamado ácido colânico, produzido naturalmente por algumas bactérias intestinais, está ligado ao aumento da longevidade em organismos simples. A nova descoberta mostra que é possível aumentar a produção desse composto de forma controlada.

Nos experimentos, os cientistas utilizaram baixas doses de um antibiótico que atua apenas no intestino, sem entrar na corrente sanguínea. Essa característica foi essencial para evitar efeitos colaterais sistêmicos.

O resultado foi surpreendente. As bactérias passaram a produzir mais ácido colânico, o que gerou benefícios claros:

  • Em vermes, houve aumento da expectativa de vida
  • Em camundongos, surgiram melhorias no colesterol
  • Houve redução dos níveis de insulina, um marcador ligado ao envelhecimento metabólico

Essas mudanças indicam um metabolismo mais saudável ao longo do tempo.

Por que essa estratégia é diferente das anteriores?

Ao contrário de tratamentos tradicionais, essa abordagem não tenta modificar diretamente o corpo humano. Em vez disso, estimula as bactérias a fazerem o trabalho, aproveitando processos biológicos já existentes.

Além disso, como o medicamento permanece restrito ao intestino, o risco de toxicidade e efeitos adversos é significativamente menor. Isso torna a estratégia especialmente promissora para uso prolongado no futuro.

Impacto na medicina do futuro

A pesquisa sugere uma mudança importante no desenvolvimento de terapias antienvelhecimento. Em vez de buscar soluções agressivas ou invasivas, a ciência pode passar a modular a microbiota intestinal para promover saúde e longevidade.

Embora os resultados ainda venham de estudos em animais, eles apontam para um novo conceito de prevenção: tratar o envelhecimento começando pelo intestino.

Base científica do estudo

Os achados foram publicados na revista científica PLOS Biology, no estudo “Chemical modulation of intestinal bacterial metabolism induces colanic acid and extends lifespan in nematode and mammalian hosts”, liderado por Guo Hu, em 2025 (DOI: 10.1371/journal.pbio.3002749).

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.