Cientistas descobrem etapa nuclear crucial que explica como o universo produz ouro

Cientistas revelam novo segredo sobre a origem do ouro no universo (Imagem: Getty Images via Canva)
Cientistas revelam novo segredo sobre a origem do ouro no universo (Imagem: Getty Images via Canva)

O ouro presente na Terra tem uma origem muito mais dramática do que se imagina. Esse metal precioso não se forma em condições comuns do universo, mas sim em eventos astrofísicos extremamente violentos, como explosões de estrelas ou colisões entre objetos compactos. Ainda assim, durante décadas, cientistas enfrentaram dificuldades para compreender as etapas nucleares específicas que levam à formação de elementos pesados.

Agora, um novo estudo liderado por pesquisadores da Universidade do Tennessee em Knoxville, publicado na revista Physical Review Letters, trouxe pistas importantes para resolver esse enigma que intriga a física nuclear há cerca de duas décadas. A pesquisa revelou três descobertas fundamentais sobre como núcleos atômicos instáveis se transformam durante o chamado processo r, responsável pela criação de elementos como ouro e platina. Os pesquisadores identificaram alguns pontos-chave que ajudam a compreender melhor esse fenômeno cósmico:

  • Medição inédita da energia liberada na emissão de dois nêutrons durante certos decaimentos nucleares;
  • Observação direta de um estado nuclear raro no estanho-133, previsto há décadas;
  • Evidência de um comportamento inesperado nas probabilidades de decaimento nuclear.

Esses resultados oferecem novas ferramentas para refinar modelos que descrevem como o universo fabrica seus elementos mais pesados.

O processo cósmico que cria metais preciosos

A produção de elementos pesados ocorre por meio do processo de captura rápida de nêutrons, conhecido como processo r. Nesse mecanismo, um núcleo atômico absorve sucessivos nêutrons em intervalos extremamente curtos.

Descoberta nuclear ajuda a explicar como o universo cria ouro (Imagem: Getty Images via Canva)
Descoberta nuclear ajuda a explicar como o universo cria ouro (Imagem: Getty Images via Canva)

Como consequência, o núcleo torna-se progressivamente mais pesado e instável. Para recuperar estabilidade, ele passa por uma sequência de decaimentos radioativos, liberando energia e partículas. Durante esse caminho no chamado mapa de nuclídeos, uma etapa comum envolve:

  • Decaimento beta, que transforma um nêutron em próton;
  • Emissão posterior de um ou dois nêutrons.

Apesar de sua importância para a astrofísica nuclear, essas reações são difíceis de estudar. Os núcleos envolvidos são extremamente instáveis e raros, existindo apenas por frações de segundo.

Experimentos com núcleos exóticos revelam pistas inéditas

Para investigar o fenômeno, os cientistas produziram grandes quantidades de um isótopo raro chamado índio-134. Os experimentos foram realizados na instalação ISOLDE do CERN, especializada na criação e análise de núcleos exóticos.

Quando o índio-134 se desintegra, ele gera diferentes formas do elemento estanho. Utilizando detectores avançados de nêutrons, os pesquisadores conseguiram observar um fenômeno particularmente difícil de medir: a emissão de dois nêutrons retardada por decaimento beta.

Essa medição permitiu identificar pela primeira vez a energia associada a esse tipo de emissão, algo que permaneceu fora do alcance experimental por anos.

Além disso, o estudo revelou um estado nuclear específico no estanho-133, cuja existência era prevista teoricamente havia cerca de duas décadas. A identificação desse estado ajuda a preencher lacunas na compreensão da estrutura interna de núcleos atômicos extremamente instáveis.

Um resultado inesperado desafia os modelos atuais

A terceira descoberta trouxe um elemento de surpresa. Os pesquisadores observaram que o novo estado nuclear identificado não segue o padrão estatístico previsto pelos modelos tradicionais.

Em termos simples, o caminho que o núcleo segue ao se desintegrar não ocorre da forma que as teorias costumavam prever. Esse resultado sugere que, ao explorar regiões mais extremas do panorama nuclear, os modelos atuais podem precisar de revisões importantes.

Consequentemente, essas descobertas ajudam a melhorar as simulações utilizadas para entender como eventos cósmicos produzem elementos pesados ao longo da história do universo.

Do caos cósmico ao ouro na Terra e o que essa descoberta revela sobre nossa origem

Embora o estudo esteja centrado na física nuclear fundamental, suas implicações vão muito além do campo teórico. Ao compreender melhor os detalhes do processo r, os cientistas conseguem reconstruir com mais precisão a história química do universo, revelando como diferentes elementos surgiram ao longo do tempo cósmico. Além disso, esses dados permitem aprimorar modelos que descrevem explosões estelares e fusões de estrelas de nêutrons, fenômenos considerados fundamentais para a formação de elementos pesados. 

Esse avanço também ajuda os pesquisadores a entender como elementos raros se dispersam pelas galáxias, enriquecendo sistemas estelares e contribuindo para a diversidade química do cosmos. Em última análise, estudos desse tipo ajudam a explicar como átomos formados em eventos cósmicos extremos acabaram integrados à matéria que compõe planetas e até mesmo objetos cotidianos feitos de ouro aqui na Terra.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes