O potencial terapêutico dos cogumelos mágicos tem despertado grande interesse na ciência, especialmente no tratamento de depressão, ansiedade e doenças neurodegenerativas. No entanto, os intensos efeitos alucinógenos da psilocibina, o composto ativo desses fungos, restringem seu uso clínico. Pesquisadores, contudo, publicaram na Journal of Medicinal Chemistry (2026) uma abordagem inovadora: derivados da psilocina que mantêm os efeitos terapêuticos sem provocar alucinações intensas.
Como os derivados da psilocina funcionam
A psilocibina é convertida pelo corpo em psilocina, que ativa receptores de serotonina no cérebro, modulando o humor e outras funções cognitivas. Alterações na sinalização serotoninérgica estão associadas a depressão, Alzheimer e outros transtornos neurológicos. Para reduzir efeitos psicodélicos, cientistas criaram cinco variantes químicas da psilocina, projetadas para liberar o composto de forma mais lenta e controlada, mantendo a atividade terapêutica.
- O composto mais promissor, chamado 4e, demonstrou liberação gradual no cérebro
- Apresentou forte estabilidade durante absorção gastrointestinal
- Ativou receptores de serotonina em níveis comparáveis à psilocibina tradicional
Testes em camundongos mostram eficácia sem psicodelia intensa
Em testes laboratoriais, camundongos receberam doses equivalentes de psilocibina e 4e por via oral. Resultados indicaram:
- 4e atravessou a barreira hematoencefálica de maneira eficiente
- Produziu níveis de psilocina menores e mais duradouros no cérebro
- Animais tratados com 4e apresentaram menos espasmos de cabeça, um marcador de atividade psicodélica
- O efeito terapêutico nos receptores de serotonina permaneceu intacto
Essa diferença sugere que a velocidade e a quantidade de psilocina liberada são determinantes para os efeitos alucinógenos. A modificação permite separar benefícios terapêuticos de respostas psicodélicas indesejadas.
Perspectivas para tratamentos mais seguros
O desenvolvimento do 4e representa um avanço significativo na farmacologia psicodélica, abrindo caminho para medicamentos que:
- Mantêm atividade serotoninérgica essencial para saúde mental
- Reduzem os efeitos alucinógenos, aumentando a segurança clínica
- Podem ser aplicados no tratamento de depressão, ansiedade e doenças neurodegenerativas
Pesquisas futuras deverão investigar segurança, eficácia em humanos e impacto a longo prazo, garantindo que essas moléculas possam se tornar terapias viáveis para pacientes que evitam psicodélicos por causa das alucinações.
O estudo foi financiado por MGGM Therapeutics e NeuroArbor Therapeutics, com inventores de patentes relacionadas à psilocina.
*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-RJ: 13912).

