Nem todos os vírus surgem com sinais claros ou grandes surtos. Alguns circulam silenciosamente em animais próximos aos humanos, como cães e bovinos, e podem atravessar barreiras entre espécies antes de serem detectados. Entre esses, o vírus da influenza D e o coronavírus canino HuPn-2018 têm chamado atenção por sua capacidade de adaptação e por escaparem dos exames de rotina.
Uma pesquisa recente indica que esses patógenos, embora pouco conhecidos, podem representar ameaças respiratórias significativas se não houver monitoramento adequado (Gray et al., Emerging Infectious Diseases, 2026; DOI: 10.3201/eid3201.251764).
Influenza D: vírus de múltiplos hospedeiros
O vírus da influenza D foi inicialmente identificado em porcos com problemas respiratórios em 2011. Desde então, estudos revelaram uma gama extensa de hospedeiros, incluindo bovinos, cabras, cervos, camelos e aves. Entre eles, os bovinos são o principal reservatório. Essa diversidade de hospedeiros aumenta o risco de transmissão para humanos que convivem ou trabalham com esses animais.
Estudos sorológicos indicam sinais de exposição humana: trabalhadores de fazendas de gado na Flórida apresentaram 97% de anticorpos contra a influenza D, enquanto controles não expostos mostraram apenas 18%.
Pesquisas no Colorado também detectaram material genético do vírus em amostras nasais de 67% dos trabalhadores de laticínios ao longo de cinco dias consecutivos. Esses dados sugerem que a transmissão zoonótica pode ocorrer silenciosamente.
Coronavírus canino HuPn-2018: perigo despercebido
O coronavírus canino HuPn-2018 é um alfacoronavírus recombinante identificado pela primeira vez em humanos na Malásia em 2021. Desde então, amostras de pacientes hospitalizados com pneumonia na Tailândia, Vietnã, Haiti e Arkansas confirmaram sua presença, mostrando que o vírus pode circular geograficamente em diferentes continentes.
O vírus ainda passa despercebido pelos testes respiratórios convencionais, dificultando sua detecção precoce. Pesquisas laboratoriais indicam que ele está em adaptação constante, o que aumenta o potencial de infecção humana no futuro.
Vigilância e prevenção: lições da pandemia
Especialistas enfatizam a necessidade de sistemas de monitoramento unificados, onde hospitais e clínicas compartilhem dados em tempo real sobre pacientes respiratórios, capacidade de UTIs, suprimentos e testes diagnósticos. Essa abordagem permitiria detecção precoce de vírus emergentes, coordenação de recursos e respostas mais rápidas das autoridades de saúde.
O alerta dos pesquisadores é claro: sem investimentos em vigilância, diagnósticos direcionados e contramedidas, vírus como a influenza D e o coronavírus canino HuPn-2018 podem se tornar as próximas ameaças respiratórias globais.
Atenção às zoonoses silenciosas
Os vírus respiratórios emergentes, embora pouco visíveis hoje, têm potencial epidêmico real. A combinação de alta adaptabilidade, diversidade de hospedeiros e invisibilidade aos testes clínicos torna esses patógenos um foco crítico para cientistas, médicos e autoridades de saúde. Investir em monitoramento estratégico e vigilância proativa agora é essencial para evitar futuras crises globais.

