China bate recorde em projeto de “Sol artificial” e revoluciona energia limpa ilimitada

Reator “sol artificial” aproxima energia limpa da realidade (Imagem: Fala Ciência via Gemini)
Reator “sol artificial” aproxima energia limpa da realidade (Imagem: Fala Ciência via Gemini)

A China alcançou um feito histórico em energia nuclear limpa com o reator EAST, conhecido como “sol artificial”. Pela primeira vez, cientistas conseguiram operar o tokamak acima do chamado Limite de Greenwald, superando um dos maiores desafios da fusão nuclear: manter o plasma estável mesmo em densidades extremamente altas.

O resultado não apenas demonstra avanços tecnológicos impressionantes, mas também indica que reatores menores podem gerar energia de forma mais eficiente e econômica, aproximando a ignição da fusão nuclear da aplicação prática.

Estratégia tecnológica que fez a diferença

O sucesso do reator EAST resultou da aplicação combinada de técnicas avançadas, como o aquecimento por micro-ondas (ECRH), que estabiliza o plasma desde o início do processo, o controle preciso da pressão do gás combustível, fundamental para evitar instabilidades, e a minimização de impurezas metálicas do revestimento de tungstênio. 

EAST, o “sol artificial” da China, supera limite histórico da fusão (Imagem: Reprodução/Xinhua)
EAST, o “sol artificial” da China, supera limite histórico da fusão (Imagem: Reprodução/Xinhua)

Essa abordagem permitiu que o plasma atingisse densidades 1,3 a 1,65 vezes maiores que o limite histórico, mantendo temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius por períodos prolongados sem interrupções. Além disso, a redução da radiação e o equilíbrio energético nas bordas do plasma foram determinantes para prevenir colapsos e garantir a operação contínua do reator. Pontos-chave dessa estratégia:

  • Estabilização do plasma desde o início com aquecimento por micro-ondas (ECRH);
  • Controle preciso da pressão do gás para evitar instabilidades;
  • Minimização de impurezas metálicas do revestimento interno;
  • Operação estável em alta densidade e temperatura acima de 100 milhões °C.

Regime livre de densidade e escalabilidade

Ao operar em um regime livre de densidade, os cientistas demonstraram que é possível controlar de forma precisa a interação entre o plasma e a parede do reator, abrindo caminho para reatores mais compactos e eficientes

Esse avanço resulta em maior densidade de partículas, o que aumenta a produção de energia, temperatura controlada para manter o plasma estável e contínuo, e potencial de aplicação internacional, com técnicas que podem ser utilizadas em projetos como o ITER, na França. 

O experimento valida a teoria de auto-organização plasma-parede (PWSO) e comprova que é possível otimizar simultaneamente densidade, temperatura e tempo de confinamento, pilares essenciais do Critério de Lawson, fundamental para a viabilidade da fusão nuclear. 

A equipe chinesa pretende expandir operações de alto desempenho e refinar ainda mais o controle do plasma, de modo que essas técnicas possam, no futuro, estabelecer um padrão internacional para reatores comerciais, oferecendo uma fonte de energia praticamente inesgotável, sustentável e economicamente viável.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua como divulgador científico. Apaixonado por ciência e educação, busca tornar o conhecimento acessível de forma clara e responsável.