O câncer de mama pós-parto, diagnosticado de cinco a dez anos após o parto, apresenta maior risco de metástase e menor sobrevida em comparação com outros tipos de câncer de mama.
Uma pesquisa intitulada Indução de senescência durante a involução da glândula mamária pós-parto apoia a remodelação tecidual e promove a tumorigênese pós-parto, publicada na revista Nature Aging em 18 de fevereiro de 2026 por Aurelie Chiche e colaboradores (DOI: 10.1038/s43587-025-01058-y), investigou os mecanismos que tornam a glândula mamária vulnerável à formação de tumores durante a involução, o processo de remodelação tecidual que ocorre após a gravidez.
Um ponto central do estudo é o papel das células senescentes. Essas células param permanentemente de se dividir, mas permanecem metabolicamente ativas, desempenhando funções cruciais na reparação e remodelação de tecidos. Elas funcionam como sinalizadores, atraindo células imunes e organizando a reconstrução do órgão. Entretanto, paradoxalmente, podem criar um ambiente favorável para o crescimento e disseminação de células tumorais.
Remodelação da glândula mamária: um processo delicado
Após a gravidez e amamentação, a glândula mamária sofre uma transformação intensa para retornar ao estado original. Esse processo, chamado involução pós-parto, envolve:
- Eliminação de células epiteliais produtoras de leite.
- Remodelação da matriz extracelular.
- Infiltração de células imunológicas, como macrófagos.
- Repovoamento do tecido com adipócitos.
Durante a involução, o ambiente temporariamente inflamatório aumenta o risco de desenvolvimento de câncer de mama pós-parto, especialmente em mulheres com idade materna mais avançada.
Senescência: reparação e risco
A senescência é essencial para a remodelação tecidual, já que células senescentes secretam fatores que recrutam células imunes e promovem a reorganização do tecido sem deixar cicatrizes permanentes. Contudo, células tumorais podem “sequestrar” essas células senescentes para melhorar sua plasticidade, sobrevivência e disseminação pelo organismo.
Modelos pré-clínicos em camundongos mostraram que eliminar células senescentes durante a involução retardou o crescimento de tumores e reduziu significativamente a formação de metástases. Esse achado reforça a ideia de que terapias direcionadas a células senescentes poderiam ser uma estratégia preventiva para o câncer de mama pós-parto.
Implicações para futuras terapias
A descoberta de que células senescentes podem atuar como facilitadoras de tumores abre caminho para pesquisas em tecidos humanos, visando entender como esses mecanismos podem ser explorados para desenvolver tratamentos preventivos direcionados a esse tipo de câncer, que ainda representa uma necessidade médica crítica não atendida.

