Carga de treino altera microbiota intestinal e influencia desempenho

Treino intenso modifica bactérias do intestino. (Foto: LuckyImages via Canva)
Treino intenso modifica bactérias do intestino. (Foto: LuckyImages via Canva)

A relação entre exercício físico e saúde vai muito além do condicionamento cardiovascular e da força muscular. Evidências recentes indicam que a intensidade do treino pode influenciar diretamente a composição da microbiota intestinal, conjunto de trilhões de microrganismos que desempenham papel essencial na imunidade, no metabolismo e até no desempenho esportivo.

Essa associação foi investigada no estudo Training load influences gut microbiome of highly trained rowing athletes, liderado por B. Charlesson, publicado em 2025 no Journal of the International Society of Sports Nutrition (DOI: 10.1080/15502783.2025.2507952). A pesquisa analisou como diferentes cargas de treinamento afetam marcadores da saúde intestinal em atletas de alto rendimento.

O intestino como aliado do desempenho

Atletas costumam apresentar um perfil de microbiota distinto quando comparados à população geral. Entre as características observadas estão:

  • Maior diversidade bacteriana
  • Concentrações elevadas de ácidos graxos de cadeia curta
  • Abundância diferenciada de espécies microbianas específicas

Esses ácidos graxos, produzidos pela fermentação de fibras no intestino, estão associados à regulação da inflamação, integridade da barreira intestinal e metabolismo energético. Portanto, mudanças em sua produção podem ter impacto direto na recuperação e na performance.

O estudo demonstrou que a carga de treinamento, por si só, esteve relacionada a variações mensuráveis nesses marcadores. Atletas submetidos a períodos de treino mais intenso apresentaram diferenças na composição bacteriana quando comparados a fases de menor exigência física.

Lactato: elo entre músculo e microbiota

Uma das hipóteses levantadas envolve o lactato, substância produzida em maior quantidade durante exercícios intensos. Após ser liberado na corrente sanguínea, o lactato pode alcançar o intestino, onde é metabolizado por determinadas bactérias.

Esse processo pode favorecer o crescimento de microrganismos específicos, alterando o equilíbrio do ecossistema intestinal. Embora o mecanismo ainda precise de investigação mais aprofundada, a interação entre metabolismo muscular e microbiota surge como um campo promissor na medicina esportiva.

Quando o treino diminui, o intestino sente

Outro achado relevante foi observado durante períodos de baixa carga de treinamento. Nesses momentos, apesar de a ingestão total de carboidratos e fibras ter permanecido semelhante, houve queda na qualidade da dieta.

Foram identificados:

  • Maior consumo de alimentos ultraprocessados
  • Redução na ingestão de frutas e vegetais frescos
  • Aumento moderado no consumo de álcool

Além disso, os atletas apresentaram desaceleração no tempo de trânsito intestinal, ou seja, o alimento permaneceu mais tempo no trato digestivo. Essa alteração também foi associada a mudanças na microbiota.

Esses dados sugerem que não apenas o exercício, mas também a combinação entre intensidade do treino, qualidade alimentar e funcionamento intestinal contribui para remodelar o microbioma.

O que isso significa para saúde e performance

Embora ainda não esteja totalmente esclarecido como essas mudanças impactam diretamente o rendimento esportivo, os resultados indicam que o intestino pode participar de processos como:

  • Regulação do pH corporal
  • Metabolização do lactato
  • Modulação inflamatória
  • Recuperação muscular

Assim, estratégias que considerem tanto a periodização do treino quanto a manutenção de uma alimentação de qualidade podem favorecer não apenas a saúde intestinal, mas também o desempenho atlético.

Sendo assim, o estudo publicado no Journal of the International Society of Sports Nutrition reforça que o corpo funciona como um sistema integrado. A microbiota intestinal responde às demandas físicas e comportamentais, demonstrando que treinar mais intensamente pode, de fato, reprogramar o ecossistema microbiano interno.

Aviso: Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação por profissional de saúde. Por: Rafaela Lucena, Farmacêutica (CRF-13912).

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn