Canetas emagrecedoras podem esconder risco nutricional sério; aponta estudo

Remédios para emagrecer podem afetar a nutrição. (Foto: Getty Images via Canva)
Remédios para emagrecer podem afetar a nutrição. (Foto: Getty Images via Canva)

O uso de medicamentos para perda de peso, especialmente os da classe dos agonistas de GLP-1, conhecidos como “canetas emagrecedoras”, tem crescido de forma expressiva. No entanto, uma nova análise científica levanta um alerta importante: a nutrição dos pacientes pode estar sendo negligenciada durante o tratamento.

Uma revisão publicada na revista Obesity Reviews (2026) investigou como estudos clínicos avaliam a alimentação de pessoas que utilizam esses medicamentos; e os resultados chamam atenção.

Uma lacuna crítica nas pesquisas

A revisão analisou 41 ensaios clínicos, envolvendo mais de 50 mil participantes, que utilizaram medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida.

Apesar do grande volume de dados, o estudo identificou um problema relevante: apenas 2 estudos avaliaram de forma direta o que os pacientes estavam comendo durante o tratamento.

Isso significa que, na maioria das pesquisas, o foco está na perda de peso e no controle glicêmico, enquanto a qualidade da alimentação e a ingestão de nutrientes não são adequadamente monitoradas.

Menos apetite, menos nutrientes

Esses fármacos diminuem a sensação de fome e promovem saciedade. Como consequência, os pacientes tendem a ingerir menos calorias ao longo do dia.

De acordo com a revisão, nos poucos estudos que avaliaram a dieta, foi observada:

  • redução da ingestão calórica total
  • alterações na distribuição de macronutrientes
  • possíveis mudanças no padrão alimentar

Esse quadro chama atenção para um ponto essencial: menos comida não significa dieta mais nutritiva.

O risco da qualidade alimentar insuficiente

Perda de peso exige atenção à qualidade da dieta. (Foto: Shisuka via Canva)
Perda de peso exige atenção à qualidade da dieta. (Foto: Shisuka via Canva)

A principal conclusão da revisão é que existe uma lacuna crítica na evidência científica sobre como esses medicamentos impactam a nutrição.

Sem esse acompanhamento, há risco de:

  • ingestão insuficiente de vitaminas e minerais
  • baixa ingestão de proteínas e fibras
  • piora na qualidade global da dieta

Segundo os autores, são necessários mais estudos com métodos adequados para avaliar o impacto real dessas terapias na alimentação e na saúde a longo prazo.

Por que isso importa para a saúde

Muitas vezes, o emagrecimento é visto como o principal parâmetro de resultado. No entanto, a saúde metabólica depende de vários fatores, incluindo a qualidade da nutrição.

Uma dieta inadequada pode levar a deficiências nutricionais e comprometer funções importantes do organismo, mesmo em pessoas que estão emagrecendo.

O que deve mudar na prática

A revisão reforça a necessidade de uma abordagem mais completa no tratamento da obesidade. Isso inclui:

  • acompanhamento nutricional durante o uso dos medicamentos
  • avaliação regular da ingestão alimentar
  • monitoramento de possíveis deficiências

Além disso, integrar estratégias alimentares adequadas pode potencializar os benefícios do tratamento e reduzir riscos.

A evidência científica atual mostra que os medicamentos para emagrecimento são eficazes na redução de peso, mas ainda existem lacunas importantes no entendimento de seus efeitos sobre a alimentação.

Sem considerar a nutrição, parte do impacto desses tratamentos pode estar sendo subestimada. Por isso, o cuidado com a dieta deve ser visto como parte essencial do processo, e não como um detalhe secundário.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn