Imagine que seu corpo está constantemente monitorando células suspeitas, preparando defesas invisíveis contra doenças. Agora pense que algo tão comum quanto a vitamina A pode estar ajudando o câncer a escapar dessas defesas.
Pesquisas recentes descobriram que um subproduto dessa vitamina, chamado ácido retinoico, pode desarmar o sistema imunológico, permitindo que tumores cresçam sem serem atacados. Esse mecanismo silencioso também diminui a eficácia de certos tipos de vacinas experimentais contra o câncer.
Por que o ácido retinoico enfraquece a imunidade?
O ácido retinoico é produzido tanto por células cancerígenas quanto por células imunológicas chamadas células dendríticas. Essas células são essenciais para detectar células anormais e treinar o sistema imune para atacá-las. Quando expostas ao ácido retinoico, elas mudam de função, criando uma tolerância ao tumor. Ou seja, ao invés de alertar o corpo sobre a presença do câncer, elas “desligam o alarme”, permitindo que o tumor se espalhe e tornando as vacinas menos eficazes.
Além disso, o ácido retinoico estimula a produção de macrófagos menos ativos, que ocupam o lugar das células dendríticas e reduzem ainda mais a resposta imunológica.
Um medicamento que restaura a defesa do corpo
Para contornar esse problema, os cientistas desenvolveram o KyA33, um composto experimental que bloqueia a produção de ácido retinoico tanto em células tumorais quanto em células dendríticas. Em testes pré-clínicos com animais, o medicamento restaurou a maturação das células dendríticas, aumentou a eficácia de vacinas contra o câncer e retardou o crescimento de tumores.
O KyA33 também funcionou sozinho, estimulando o sistema imunológico a atacar o câncer diretamente, abrindo caminho para uma nova geração de imunoterapias.
O paradoxo da vitamina A

Durante décadas, a vitamina A foi associada à prevenção do câncer. Em laboratório, o ácido retinoico pode até reduzir o crescimento de células cancerígenas. No entanto, em altos níveis, tanto em tumores quanto na dieta, ele também pode favorecer o crescimento e reduzir a resposta imunológica.
Estudos ajudaram a esclarecer esse paradoxo: o câncer usa a enzima ALDH1A3 para produzir ácido retinoico e “enganar” o sistema imunológico, evitando os efeitos antiproliferativos da própria vitamina.
Pesquisas detalhadas na Nature Immunology, no artigo “O direcionamento da sinalização autócrina do ácido retinóico por meio da inibição da ALDH1A2 aumenta a eficácia da vacina antitumoral de células dendríticas” de Cao Fang et al., 2026, e em outro estudo publicado na iScience sobre o desenvolvimento de inibidores de ácido retinoico liderado por Mark Esposito et al., 2026, explicam como esse mecanismo permite que tumores escapem da vigilância imunológica e como novos compostos podem reverter esse efeito.
Novos horizontes para a imunoterapia
Os avanços apresentados abrem caminho para tratamentos que podem bloquear especificamente a sinalização do ácido retinoico, fortalecendo a imunidade e aumentando a eficácia de vacinas e imunoterapias.
Pesquisadores estão agora avançando para testes clínicos, com potencial de impacto não apenas no câncer, mas também em outras doenças moduladas pelo ácido retinoico, como diabetes e problemas cardiovasculares.

