Câncer cerebral pode começar muito antes do que os exames conseguem detectar

Tumor cerebral pode começar em células aparentemente normais. (Foto: Getty Images via Canva)
Tumor cerebral pode começar em células aparentemente normais. (Foto: Getty Images via Canva)

Por décadas, acreditou-se que o câncer cerebral surgia apenas quando uma massa tumoral se tornava visível em exames de imagem. No entanto, uma nova descoberta científica desafia esse conceito e indica que o processo pode começar anos antes do diagnóstico, de forma silenciosa e praticamente invisível aos métodos atuais.

Um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Science, intitulado “Gliomas mutantes IDH surgem de células progenitoras gliais que abrigam a mutação condutora inicial”, liderado por Jung Won Park, demonstra que um dos tumores cerebrais malignos mais comuns em adultos jovens pode se originar em células cerebrais que aparentam estar completamente normais no início do processo (DOI: 10.1126/science.adt0559).

Uma origem invisível no cérebro saudável

O foco da pesquisa foi o glioma com mutação no gene IDH, um tipo de câncer cerebral particularmente difícil de tratar devido à alta taxa de recorrência. Tradicionalmente, o tratamento se concentra na remoção do tumor visível. No entanto, os dados revelam que essa estratégia pode ignorar a verdadeira origem da doença.

Os cientistas identificaram que células progenitoras gliais, presentes no tecido cerebral normal, podem adquirir silenciosamente a mutação IDH. Mesmo sem formar um tumor detectável, essas células mutantes já conseguem se espalhar pelo córtex cerebral, criando um cenário propício para o desenvolvimento futuro do câncer.

Tecnologia avançada revela o que os olhos não veem

Para mapear esse processo oculto, a equipe utilizou transcriptômica espacial, uma tecnologia que permite identificar quais genes estão ativos em regiões específicas do tecido cerebral. Essa abordagem confirmou que as células com mutação estavam localizadas fora da área tumoral visível, em regiões aparentemente saudáveis.

Além disso, os pesquisadores reproduziram o fenômeno em modelos animais. Ao introduzir a mutação IDH diretamente em células progenitoras gliais de camundongos, observaram o surgimento gradual de alterações compatíveis com o desenvolvimento do glioma, reforçando a hipótese de que o câncer cerebral pode evoluir lentamente ao longo de muitos anos.

Nem todo câncer cerebral segue o mesmo caminho

A pesquisa também ajuda a esclarecer por que diferentes tipos de câncer cerebral se comportam de maneira distinta. Estudos anteriores do mesmo grupo já haviam mostrado que o glioblastoma sem mutação IDH se origina em outro tipo celular e em uma região diferente do cérebro.

Essas descobertas reforçam que os tumores cerebrais não compartilham uma única origem biológica. Pelo contrário, cada subtipo pode seguir um caminho próprio, o que tem implicações diretas para diagnóstico e tratamento.

Impactos para diagnóstico precoce e novas terapias

Compreender que o câncer cerebral pode começar muito antes da formação do tumor abre novas possibilidades clínicas, como:

  • desenvolvimento de métodos de detecção precoce molecular
  • terapias direcionadas às células de origem do tumor
  • estratégias para reduzir a recorrência após o tratamento

Paralelamente, iniciativas já estão em andamento para criar medicamentos baseados em RNA capazes de interferir nesse estágio inicial da doença, antes que o tumor se torne clinicamente evidente.

Ao revelar que o câncer cerebral pode se iniciar silenciosamente em tecido aparentemente saudável, este estudo representa um avanço significativo na compreensão da doença. A partir dessa nova perspectiva, o futuro do tratamento pode deixar de ser apenas reativo e passar a ser preventivo, preciso e personalizado.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.