Trabalhar em um ambiente muito quente ou muito frio pode tornar a rotina mais difícil. O desconforto afeta a disposição, exige esforço do organismo e pode atrapalhar as atividades do dia a dia. Mas será que essas condições também têm alguma relação com a saúde mental?
Uma pesquisa publicada em outubro de 2026 investigou essa questão com dados de mais de 29 mil trabalhadores da Coreia do Sul. Os cientistas analisaram se o tempo passado em ambientes profissionais muito quentes ou frios estava relacionado à presença de sintomas depressivos.
Os resultados ajudam a entender melhor o assunto, mas é importante destacar um detalhe: o estudo não comprovou que trabalhar sob temperaturas extremas provoque depressão.
Como o calor e o frio afetam o corpo durante o trabalho?
O corpo humano precisa manter uma temperatura interna adequada para funcionar bem. Por isso, quando está muito quente, ele produz suor para ajudar a liberar calor. Já em ambientes frios, os vasos sanguíneos próximos à pele se contraem para diminuir a perda de calor.
Essas respostas são naturais. No entanto, passar muitas horas em condições desconfortáveis pode tornar a jornada de trabalho mais desgastante, principalmente quando não há pausas adequadas ou proteção contra as temperaturas extremas.
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Entrar no Canal do WhatsAppO calor excessivo também pode favorecer a desidratação e o cansaço. O frio intenso, por sua vez, pode dificultar algumas tarefas e reduzir o conforto físico.
Esses fatores tornam importante investigar se as condições do ambiente profissional também estão relacionadas ao bem-estar emocional dos trabalhadores.
Estudo analisou mais de 29 mil trabalhadores
A pesquisa foi publicada em 26 de outubro de 2026, na revista científica Scientific Reports. O autor principal é Sung-Kyung Kim, que participou do trabalho ao lado de outros pesquisadores.
Para realizar a análise, a equipe utilizou informações de uma pesquisa nacional sobre as condições de trabalho na Coreia do Sul, realizada em 2017. Ao todo, 29.413 trabalhadores foram incluídos na análise principal.
Os participantes informaram quanto tempo ficavam expostos ao calor ou ao frio durante o expediente. Em seguida, os pesquisadores dividiram essas informações em quatro categorias: nenhuma exposição, exposição baixa, intermediária ou alta.
A equipe também avaliou a saúde mental por meio do questionário WHO-5, uma ferramenta que utiliza cinco perguntas para avaliar o bem-estar psicológico. Nesse estudo, uma pontuação baixa foi considerada um possível sinal de sintomas depressivos.
Resultados não confirmaram uma relação direta
A análise identificou uma prevalência estimada de 11,07% de sintomas depressivos entre os trabalhadores avaliados.
Entretanto, os resultados não mostraram um aumento constante dos sintomas conforme crescia o tempo de exposição ao calor ou ao frio.
Entre os trabalhadores expostos intensamente ao calor, a estimativa encontrada foi 4% maior do que entre aqueles sem exposição. No caso do frio intenso, a estimativa foi 15% maior.
Apesar disso, nenhuma dessas diferenças apresentou evidência estatística suficiente para confirmar uma associação. Isso significa que os resultados também são compatíveis com a possibilidade de não existir uma diferença real entre os grupos.
Os pesquisadores ainda avaliaram se os resultados variavam de acordo com o sexo ou o tipo de ocupação. De modo geral, não encontraram evidências de diferenças significativas nesses grupos.
Portanto, embora o tema mereça atenção, os dados não permitem afirmar que trabalhar em ambientes muito quentes ou frios aumente o risco de depressão.
Por que os pesquisadores pedem novos estudos?
Um detalhe importante é que os cientistas analisaram informações de um determinado período, sem acompanhar os trabalhadores durante vários anos. Esse tipo de pesquisa permite identificar possíveis relações entre fatores, mas não determina qual deles aconteceu primeiro.
Além disso, os próprios participantes informaram o tempo de exposição ao calor e ao frio. Os pesquisadores não utilizaram medições diretas da temperatura em cada ambiente de trabalho.
Por esse motivo, novas pesquisas precisam acompanhar os trabalhadores por mais tempo e medir as condições ambientais com maior precisão. Assim, será possível compreender melhor se existe alguma relação entre a exposição a temperaturas extremas e a saúde mental.
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Cuidados no ambiente profissional continuam importantes
Mesmo sem comprovar uma ligação direta com a depressão, o estudo chama a atenção para a importância de oferecer condições adequadas de trabalho.
Ventilação, acesso à água, pausas para descanso, roupas apropriadas e proteção contra temperaturas extremas ajudam a reduzir o desconforto e os riscos associados ao ambiente profissional.
Também é importante lembrar que a saúde mental depende de vários fatores, como qualidade do sono, condições de vida, relações pessoais e rotina de trabalho. Por isso, nenhum desses aspectos deve ser analisado isoladamente.
A pesquisa de Sung-Kyung Kim e colaboradores, publicada na Scientific Reports, contribui para ampliar a investigação sobre o tema, mas seus resultados ainda não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito.
