Café em excesso pode impactar seu cérebro e intestino, aponta pesquisa

Café pode alterar intestino e comportamento. (Foto: Pexels via Canva)
Café pode alterar intestino e comportamento. (Foto: Pexels via Canva)

Para muita gente, o café é quase automático na rotina. Ele desperta, melhora o foco e parece inofensivo. No entanto, um estudo recente publicado na Nature Communications, liderado por Serena Boscaini em abril de 2026, mostra que o consumo frequente, especialmente em excesso, pode provocar mudanças profundas no organismo.

E essas mudanças não ficam só na disposição. Elas atingem diretamente o intestino e o cérebro.

Um diálogo invisível dentro do seu corpo

O estudo mergulhou no chamado eixo microbiota-intestino-cérebro, uma conexão direta entre o que acontece no intestino e o funcionamento da mente.

Na prática, isso significa que o café pode:

  • Alterar as bactérias intestinais
  • Modificar substâncias químicas do corpo
  • Influenciar emoções, comportamento e cognição

Os pesquisadores observaram que pessoas que consomem café regularmente apresentam um perfil diferente de microbioma intestinal, com aumento de algumas bactérias específicas e redução de compostos importantes para o equilíbrio do organismo.

O café pode estar influenciando suas reações 

Um dos achados mais curiosos foi o impacto no comportamento.

Comparados aos não consumidores, quem bebe café com frequência apresentou:

  • Maior impulsividade
  • Reações emocionais mais intensas

Enquanto isso, pessoas que não consumiam café tiveram melhor desempenho em testes de memória.

Isso sugere que o café pode influenciar o cérebro de maneiras mais complexas do que apenas “dar energia”.

Nem tudo gira em torno da cafeína

Um ponto importante do estudo é que os efeitos observados não dependem apenas da cafeína.

Durante a pesquisa, os participantes passaram por fases com:

  • Consumo normal de café
  • Período sem café
  • Reintrodução com café com e sem cafeína

Mesmo o café descafeinado foi capaz de provocar alterações no intestino e no corpo. Isso indica que outros compostos da bebida, como os polifenóis, também desempenham um papel relevante.

O corpo responde rápido, para o bem e para o mal

Outro detalhe que chama atenção é a velocidade dessas mudanças.

Após cerca de duas semanas sem café:

  • O microbioma intestinal começou a se reorganizar
  • Alguns compostos voltaram ao padrão de quem não consome a bebida

Quando o café foi reintroduzido, as alterações reapareceram rapidamente.

Ou seja, o organismo responde de forma dinâmica ao consumo, especialmente quando ele é frequente ou em excesso.

Então, o café é vilão?

Não necessariamente. O próprio estudo reforça que o café já foi associado, em outras pesquisas, a benefícios como redução de risco de algumas doenças.

O ponto central aqui é outro:
o efeito do café é amplo e depende da quantidade e da frequência.

Consumir de forma exagerada pode:

  • Desregular o equilíbrio intestinal
  • Influenciar o humor e o comportamento
  • Alterar respostas do cérebro

Um hábito comum com efeitos que passam despercebidos

O estudo da Nature Communications (Serena Boscaini, 2026) mostra que o café não age apenas como estimulante.

Ele pode ser um verdadeiro modulador do organismo, capaz de afetar:

  • A saúde intestinal
  • O funcionamento do cérebro
  • O comportamento emocional

Por isso, mais do que cortar ou exagerar, o ideal é observar como seu corpo reage.

Afinal, aquele cafezinho do dia a dia pode estar fazendo muito mais do que você imagina.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-RJ:13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn