Pequenas escolhas feitas no prato, repetidas ao longo dos anos, podem influenciar o risco de desenvolver doenças graves. Um novo estudo apresentado no San Antonio Breast Cancer Symposium reforça essa ideia ao associar o consumo regular de vegetais crucíferos, como brócolis, repolho e couve-flor, a uma redução significativa no risco de câncer de mama, incluindo formas mais agressivas da doença.
Como o estudo foi realizado
A análise avaliou dados combinados de dois grandes estudos observacionais, reunindo informações de quase 170 mil mulheres. Os resultados indicaram que a ingestão de ao menos seis porções semanais de vegetais crucíferos esteve associada a um risco 8% menor de câncer de mama em geral e a uma redução de 13% nos tumores HER-negativos, conhecidos por comportamento mais agressivo.
Essas conclusões foram apresentadas por Andrea Romanos-Nanclares, com base em análises dietéticas de longo prazo derivadas do Nurses’ Health Study e do Nurses’ Health Study II, amplamente utilizados em pesquisas nutricionais.
O papel dos compostos bioativos
Os vegetais crucíferos pertencem à família Brassicaceae e são ricos em glucosinolatos, compostos que, durante a mastigação e a digestão, se transformam em isotiocianatos e indóis. Esses metabólitos participam de mecanismos celulares relevantes, como:
- Ativação de enzimas de desintoxicação
- Modulação da inflamação
- Proteção antioxidante
- Inibição do crescimento celular desordenado
Estudos experimentais e observacionais já haviam sugerido associações semelhantes para outros tipos de câncer, incluindo pulmão, próstata, cólon e estômago.
Alimentação como fator de proteção, não garantia
Embora os achados reforcem um possível efeito protetor da dieta, é importante destacar que o câncer de mama é uma doença multifatorial. Isso significa que nenhum alimento isolado previne a doença, mas padrões alimentares saudáveis podem reduzir riscos ao longo do tempo.
Nesse contexto, os vegetais crucíferos se destacam como um fator potencialmente modificável, acessível e de fácil incorporação à rotina alimentar.
Obesidade e risco aumentado
O estudo também reforçou um ponto já bem estabelecido na literatura científica: a obesidade crônica está associada a maior risco de câncer de mama, especialmente dos subtipos HER-negativos. O excesso de peso contribui para:
- Inflamação crônica
- Alterações hormonais
- Aumento da resistência à insulina
Esses fatores podem neutralizar parte dos benefícios de uma alimentação rica em compostos bioativos, reforçando a importância do equilíbrio metabólico.
Preparo adequado para preservar os benefícios
O modo de preparo influencia a quantidade de glucosinolatos disponíveis. As melhores estratégias incluem:
- Consumo cru
- Cozimento rápido no vapor
- Refogados breves, com pouco óleo
Cozimentos prolongados em água podem reduzir significativamente esses compostos.
Evidência científica por trás dos achados
As associações observadas estão alinhadas com resultados de revisões e meta-análises anteriores, como o estudo “Cruciferous vegetable consumption and breast cancer risk: a meta-analysis”, publicado na revista Breast Cancer Research and Treatment por Wu QJ em 2013, e a revisão “Cruciferous vegetables, isothiocyanates and cancer risk”, de Liu X, publicada em Molecular Nutrition & Food Research em 2021.

