Bebidas com cannabis surgem como estratégia promissora para reduzir o consumo de álcool

Estudo avalia substituição do álcool por CBD. (Foto: Getty Images via Canva)
Estudo avalia substituição do álcool por CBD. (Foto: Getty Images via Canva)

O consumo excessivo de álcool continua sendo um dos principais desafios de saúde pública no mundo. Associado a pelo menos sete tipos de câncer e a quase 200 doenças e condições médicas, ele impacta tanto a saúde individual quanto os sistemas de saúde. Diante desse cenário, pesquisadores vêm explorando alternativas capazes de reduzir danos sem exigir abstinência total. Uma pesquisa recente indica que as bebidas à base de cannabis podem se consolidar como uma alternativa viável dentro dessa abordagem.

A pesquisa foi publicada em janeiro de 2026 no Journal of Psychoactive Drugs, no artigo intitulado A exploração da substituição de bebidas alcoólicas por bebidas à base de cannabis: uma nova estratégia de redução de danos, liderado por Jessica S. Kruger (DOI:10.1080/02791072.2026.2614506). Trata-se do primeiro estudo a investigar especificamente as bebidas com cannabis como possível ferramenta para diminuir o consumo de álcool.

O que é redução de danos e por que isso importa

A redução de danos é uma abordagem que busca minimizar os efeitos negativos associados ao uso de substâncias, reconhecendo que muitas pessoas continuarão consumindo álcool ou outras drogas lícitas. Em vez de focar exclusivamente na abstinência, essa estratégia prioriza a diminuição de riscos.

Nesse contexto, a cannabis costuma apresentar menos riscos quando comparada ao consumo excessivo de álcool, especialmente no que se refere a danos orgânicos e impacto social. Assim, substituir uma substância por outra potencialmente menos prejudicial pode ser uma alternativa pragmática para parte da população.

O que os dados revelam sobre a substituição

O estudo analisou 438 adultos que haviam consumido cannabis no último ano. Entre eles, cerca de 56% também relataram consumo de álcool. Aproximadamente um terço afirmou ter ingerido bebidas com cannabis, geralmente uma por ocasião.

Os resultados chamam atenção. Participantes que passaram a consumir essas bebidas relataram redução significativa na ingestão alcoólica:

  • Média de 7,02 doses semanais antes da substituição
  • Média de 3,35 doses semanais após iniciar as bebidas com cannabis
  • Diminuição de episódios de consumo excessivo de álcool

Além disso, 62,6% dos participantes indicaram ter reduzido ou interrompido o consumo de álcool após aderirem às bebidas com cannabis. Apenas uma pequena parcela relatou aumento na ingestão alcoólica.

O papel do CBD e o contexto social

A maioria das bebidas analisadas continha até 10 mg de canabidiol (CBD), composto não psicoativo associado a efeitos de relaxamento e bem-estar. Curiosamente, quase metade dos participantes não sabia o teor de CBD presente no produto, o que sugere necessidade de maior educação sobre rotulagem e composição.

Outro fator relevante é o contexto social. As bebidas com cannabis são comercializadas em latas semelhantes às de cervejas ou hard seltzers. Dessa forma, elas se integram facilmente a ambientes sociais como festas e bares, oferecendo uma experiência semelhante à do álcool, porém com perfil de risco potencialmente diferente.

Mercado em expansão e implicações futuras

O mercado global de bebidas com cannabis está em rápido crescimento, com projeções bilionárias para os próximos anos. Paralelamente, cresce o interesse da população por estratégias para reduzir o consumo de álcool, seja por motivos de saúde, desempenho ou bem-estar.

Embora os resultados sejam promissores, é importante destacar que o estudo possui caráter observacional e envolve autorrelato. Portanto, novas pesquisas longitudinais serão essenciais para avaliar impactos de longo prazo, segurança e possíveis efeitos adversos.

Ainda assim, os dados indicam que as bebidas com cannabis podem representar uma ferramenta complementar em ações de saúde pública, especialmente dentro de estratégias de redução de danos.

Rafaela Lucena é farmacêutica (CRF-13912) graduada pela UNIG. Une sua formação em saúde à paixão pela divulgação científica para traduzir estudos clínicos e farmacológicos para o cotidiano. Como responsável técnica pelo Fala Ciência, dedica-se a combater a desinformação com rigor técnico e embasamento científico de qualidade. Ver perfil no LinkedIn