Bactérias intestinais podem causar embriaguez sem álcool, aponta pesquisa

Síndrome rara causa embriaguez sem consumo de álcool. (Foto: Alena via Canva)
Síndrome rara causa embriaguez sem consumo de álcool. (Foto: Alena via Canva)

Sentir-se embriagado sem consumir álcool parece improvável, mas essa condição é real e agora está cientificamente explicada. Um estudo publicado em janeiro de 2026 trouxe evidências robustas de que o metabolismo do etanol pela microbiota intestinal pode causar intoxicação alcoólica endógena, fenômeno conhecido como síndrome da autofermentação ou síndrome da autocervejaria.

A pesquisa, divulgada na revista Nature Microbiology, analisou pacientes com sintomas de embriaguez persistente mesmo em completa abstinência alcoólica, revelando um mecanismo biológico até então pouco compreendido.

Quando o intestino passa a produzir álcool?

O corpo humano produz pequenas quantidades de etanol de forma natural, principalmente pela fermentação microbiana de carboidratos no intestino. Em indivíduos saudáveis, esse álcool é rapidamente metabolizado pelo fígado e não provoca efeitos clínicos. No entanto, o novo estudo mostrou que, em determinados pacientes, esse processo ocorre de forma exagerada.

No artigo “O metabolismo do etanol pela microbiota intestinal contribui para a síndrome da autofermentação em uma coorte observacional” (DOI doi.org/10.1038/s41564-025-02225-y), publicado em 8 de janeiro de 2026, os pesquisadores demonstraram que a produção excessiva de álcool ocorre devido à atividade metabólica de bactérias específicas, capazes de converter açúcares da dieta em etanol em níveis suficientes para alterar o estado neurológico.

As bactérias envolvidas na síndrome da autofermentação

A equipe liderada por Cheng-Lung Hsu identificou um padrão microbiológico característico em pacientes afetados. Amostras fecais revelaram uma abundância anormal de bactérias como Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli, microrganismos com alta capacidade fermentativa.

Essas bactérias utilizam vias metabólicas especializadas para transformar carboidratos em etanol de maneira contínua, sobrecarregando os mecanismos naturais de detoxificação do organismo. Como resultado, o álcool se acumula na corrente sanguínea, provocando sintomas como:

  • tontura e confusão mental
  • fala arrastada
  • perda de coordenação motora
  • sensação subjetiva de embriaguez

Um avanço decisivo no diagnóstico

Até recentemente, a síndrome da autocervejaria era subdiagnosticada. O método considerado padrão exigia um teste de sobrecarga de carboidratos, complexo, caro e restrito a ambientes hospitalares. O novo estudo observacional demonstrou que a identificação das assinaturas genéticas das vias microbianas produtoras de etanol permite um diagnóstico mais simples e preciso.

Isso abre caminho para o uso de exames de fezes como ferramenta diagnóstica, reduzindo erros clínicos e evitando que pacientes sejam incorretamente rotulados como portadores de transtorno por uso de álcool.

Implicações terapêuticas e novas abordagens

Além do diagnóstico, os dados apontam para estratégias terapêuticas mais direcionadas. O estudo publicado na Nature Microbiology sugere que intervenções capazes de modular a microbiota intestinal podem reduzir ou eliminar a produção excessiva de etanol.

Entre as abordagens promissoras estão:

  • uso criterioso de antibióticos direcionados
  • ajustes dietéticos específicos
  • transplante de microbiota fecal, em casos refratários

Essas estratégias visam restaurar o equilíbrio microbiano e interromper a fermentação patológica.

Uma condição metabólica, não comportamental

Ao estabelecer uma ligação direta entre microbiota intestinal e intoxicação alcoólica endógena, o estudo publicado em 2026 redefine a síndrome da autofermentação como uma doença metabólica e infecciosa, afastando interpretações morais ou comportamentais.

Esse avanço científico representa um passo fundamental para diagnóstico precoce, tratamento eficaz e redução do estigma enfrentado por pessoas que convivem com essa condição rara.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.