Ataques de orcas podem explicar encalhes de centenas de golfinhos na Patagônia

Orcas podem ter provocado encalhes de golfinhos na Patagônia (Imagem: Sebastian Ortega/ Royal Society Open Science (2026))
Orcas podem ter provocado encalhes de golfinhos na Patagônia (Imagem: Sebastian Ortega/ Royal Society Open Science (2026))

Eventos de encalhe em massa de golfinhos sempre despertam preocupação entre cientistas e ambientalistas. Quando centenas de animais aparecem presos em águas rasas, surgem inúmeras hipóteses, desde doenças até poluição sonora ou interferência humana. No entanto, um novo estudo sugere que a causa pode ser muito mais natural e dramática.

Pesquisadores analisaram dois grandes episódios ocorridos em 2021 e 2023 na Baía de San Antonio, no norte da Patagônia argentina. Durante esses eventos, centenas de golfinhos-comuns ficaram presos em bancos de areia. Embora muitos tenham sido resgatados e devolvidos ao mar, o motivo que levou os animais a nadarem para águas rasas permaneceu um mistério por anos.

O trabalho científico, publicado na revista Royal Society Open Science, indica que a presença de orcas, um dos principais predadores marinhos, pode ter desencadeado a fuga dos golfinhos para regiões perigosamente rasas. Entre os principais dados reunidos pelos pesquisadores estão:

  • Necropsias realizadas em 38 golfinhos, que mostraram animais saudáveis e sem sinais de doenças;
  • Registros em vídeo feitos por drones e barcos turísticos mostrando o comportamento dos grupos;
  • Relatos de pescadores e moradores locais sobre a presença de orcas antes dos encalhes;
  • Identificação de orcas específicas, utilizando o formato único das nadadeiras dorsais.

A fuga que terminou em armadilha natural

As imagens analisadas mostram que os golfinhos começaram a se agrupar densamente e nadar rapidamente em direção à costa pouco antes do encalhe. Esse comportamento é típico de espécies que tentam escapar de predadores.

O problema é que a Baía de San Antonio possui uma geografia complexa, formada por canais estreitos e extensos bancos de areia. Ao fugir para essas áreas rasas, os golfinhos acabam entrando em regiões onde a água recua rapidamente com as marés, tornando difícil retornar ao mar aberto.

Assim, uma estratégia natural de sobrevivência pode acabar se transformando em uma armadilha mortal.

O papel dos predadores nos encalhes marinhos

Tradicionalmente, encalhes coletivos de cetáceos costumam ser associados a diferentes fatores, como doenças ou infecções, desorientação acústica e também interferência humana, incluindo embarcações e redes de pesca. No entanto, o novo estudo liderado por Paul Arnold e colaboradores sugere que interações com predadores também podem desempenhar um papel relevante nesses eventos. 

As análises realizadas nos animais encalhados não identificaram sinais de ferimentos, desnutrição ou impactos com barcos, o que reforça a hipótese de que a fuga de orcas pode ter sido o principal gatilho para o deslocamento dos golfinhos em direção às águas rasas

Como essa descoberta pode ajudar no resgate de animais?

Compreender as causas de encalhes é essencial para melhorar estratégias de resposta rápida em eventos futuros.

Se os cientistas conseguem identificar que os animais estão saudáveis e apenas desorientados após uma fuga, as equipes de resgate podem agir com mais rapidez para guiá-los de volta a águas profundas. Além disso, o estudo contribui para ampliar o entendimento sobre como interações predador-presa podem influenciar o comportamento coletivo de cetáceos.

*Texto produzido pelo Fala Ciência com autoria e revisão técnica de Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ).

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes