Árvores especiais podem acelerar a recuperação das florestas tropicais e capturar mais CO₂

Nitrogênio no solo faz florestas crescerem duas vezes mais rápido (Imagem: Getty Images via Canva)
Nitrogênio no solo faz florestas crescerem duas vezes mais rápido (Imagem: Getty Images via Canva)

A recuperação das florestas tropicais pode estar muito mais ligada ao solo do que se imaginava. Novas evidências científicas indicam que a presença de nitrogênio disponível é um dos fatores mais decisivos para acelerar o crescimento de árvores em áreas degradadas, especialmente aquelas que antes foram usadas para agricultura ou pecuária. Como resultado, florestas jovens conseguem dobrar sua biomassa e ampliar de forma expressiva o sequestro de carbono da atmosfera.

Além disso, esse processo ocorre de forma natural por meio das chamadas árvores fixadoras de nitrogênio, capazes de converter o gás nitrogênio do ar em nutrientes assimiláveis pelas plantas. Em outras palavras, são espécies que funcionam como verdadeiras fábricas biológicas de fertilizante, enriquecendo o solo sem necessidade de insumos artificiais.

Logo após análises de campo em diferentes estágios de regeneração florestal, pesquisadores observaram que áreas mais jovens respondem fortemente à presença de nitrogênio, enquanto florestas maduras praticamente não apresentam limitação nutricional. Principais impactos observados:

  • aumento acelerado da biomassa vegetal;
  • maior armazenamento de carbono no tronco e nas raízes;
  • melhoria da fertilidade do solo;
  • estímulo à sucessão ecológica natural.

O papel invisível do nitrogênio na saúde das florestas

O nitrogênio é um dos elementos mais essenciais para a vida vegetal, pois participa da formação de proteínas, clorofila e DNA. Contudo, práticas como desmatamento e pastagem intensiva levam à depleção desse nutriente, comprometendo a regeneração por décadas.

Nesse contexto, espécies leguminosas, como muitas árvores tropicais, formam associações com bactérias simbióticas que vivem em nódulos radiculares, onde ocorre a fixação do nitrogênio atmosférico. Assim, o próprio ecossistema passa a se autorregular, sem depender de fertilização externa.

Árvores fixadoras de nitrogênio: uma estratégia natural contra o aquecimento global

Do ponto de vista climático, o impacto é ainda mais relevante, já que florestas tropicais em regeneração são responsáveis por uma parcela significativa do sumidouro global de carbono, absorvendo mais CO₂ do que liberam. Portanto, acelerar esse processo significa reduzir a concentração de gases de efeito estufa de forma direta e sustentável.

Por isso, em vez de adotar estratégias inviáveis como fertilizar grandes áreas, a ciência aponta para uma alternativa mais eficiente: priorizar o plantio de árvores fixadoras de nitrogênio em projetos de reflorestamento.

Essas descobertas reforçam que restaurar florestas não é apenas plantar árvores, mas reconstruir a funcionalidade do solo, integrando espécies-chave capazes de enriquecer o ambiente, aumentar a resiliência dos ecossistemas, acelerar a captura de carbono, reduzir custos de recuperação ambiental e fortalecer estratégias de mitigação climática. Portanto, investir em árvores que alimentam o próprio ecossistema pode ser uma das formas mais inteligentes de transformar florestas degradadas em aliadas poderosas contra a crise climática.

Leandro Sinis é biólogo, formado pela UFRJ, e atua na educação científica e como divulgador, com o compromisso de traduzir descobertas complexas, das microbactérias aos grandes ecossistemas, em conhecimento acessível para todos.Ver perfil no LinkedIn