Aquecimento global já afeta permanência de jovens no ensino médio brasileiro

Calor extremo aumenta risco de evasão nas escolas públicas (Imagem: Getty Images via Canva)
Calor extremo aumenta risco de evasão nas escolas públicas (Imagem: Getty Images via Canva)

O avanço das mudanças climáticas não afeta apenas o meio ambiente ou a saúde física, mas começa a gerar impactos profundos na educação brasileira. Um estudo recente conduzido por pesquisadores da FGV e da Universidade Minerva aponta que dias com temperaturas acima de 34°C aumentam em cerca de 5% a probabilidade de abandono escolar entre estudantes do ensino médio da rede pública.

Embora já se soubesse que o calor interfere no desempenho cognitivo, essa é uma das primeiras evidências de que o aquecimento global também influencia diretamente a evasão escolar, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social. Principais achados da pesquisa:

  • O impacto é observado apenas em escolas públicas;
  • Regiões urbanas são as mais afetadas;
  • Não houve efeito significativo no ensino fundamental;
  • Escolas privadas não apresentaram aumento de evasão.

O calor como inimigo silencioso da aprendizagem

O desconforto térmico compromete funções cerebrais essenciais, como atenção, memória, autorregulação emocional e capacidade de concentração. A partir de cerca de 27°C, o organismo já começa a apresentar queda no desempenho cognitivo, o que dificulta o aprendizado e aumenta a sensação de frustração entre adolescentes.

Além disso, noites mais quentes prejudicam o sono restaurador, etapa fundamental para consolidar o conteúdo aprendido durante o dia. Dessa forma, o estudante enfrenta um ciclo de baixa performance: aprende menos, sente-se desmotivado e passa a faltar com mais frequência, até que o abandono se torna mais provável.

Desigualdade térmica também é desigualdade educacional

Os efeitos do calor são mais intensos justamente nas escolas com pior infraestrutura, muitas vezes localizadas em bairros periféricos. Enquanto parte das escolas privadas conta com ar-condicionado, ventilação adequada e salas climatizadas, grande parcela da rede pública ainda enfrenta salas superlotadas, mal ventiladas e sem climatização.

Dados recentes mostram que apenas cerca de um terço das salas de aula públicas possuem algum tipo de sistema de refrigeração. Isso significa que estudantes de menor renda acumulam mais um fator de desvantagem em relação aos seus pares.

Adaptação climática como política educacional

Diante desse cenário, políticas públicas de adaptação climática nas escolas tornam-se estratégicas, já que o novo Plano Nacional de Educação prevê ações como a melhoria da infraestrutura térmica, a implementação de planos de prevenção a eventos extremos e o ajuste de horários escolares em dias de calor intenso. 

Essas medidas não são apenas intervenções estruturais, mas também estratégias diretas para garantir a permanência escolar, pois investir em conforto térmico contribui para reduzir a evasão, melhorar o desempenho acadêmico e proteger a saúde física e mental dos estudantes. Assim, o calor extremo deixa de ser apenas um fenômeno ambiental e passa a ser um fator social determinante, capaz de influenciar de forma concreta o futuro educacional de milhões de jovens brasileiros.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes