Aquecimento global ameaça até metade das espécies de insetos na Amazônia

Aquecimento global pode ameaçar metade dos insetos da Amazônia (Imagem: Getty Images via Canva)
Aquecimento global pode ameaçar metade dos insetos da Amazônia (Imagem: Getty Images via Canva)

Os insetos da Amazônia, fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas, podem estar muito mais vulneráveis ao aquecimento global do que os cientistas imaginavam. Um estudo internacional com mais de 2.000 espécies de insetos revelou que muitas delas possuem limites térmicos rígidos, o que dificulta a adaptação a temperaturas cada vez mais elevadas.

A pesquisa, publicada na revista científica Nature e liderada por Kim L. Holzmann e Marcell K. Peters, analisou insetos de diferentes ambientes tropicais e montanhosos. Os resultados indicam que até metade das espécies da região amazônica pode enfrentar estresse térmico perigoso nas próximas décadas, caso o aquecimento do planeta continue.

O alerta é especialmente preocupante porque os insetos desempenham funções essenciais na manutenção da vida nos ecossistemas. Entre os papéis ecológicos mais importantes estão:

  • Polinização de plantas e culturas agrícolas;
  • Decomposição de matéria orgânica;
  • Controle natural de pragas;
  • Base alimentar para aves, anfíbios e outros animais.

Quando essas populações entram em declínio, os impactos podem se espalhar rapidamente por toda a cadeia ecológica.

A surpreendente rigidez térmica dos insetos tropicais

Um dos aspectos mais relevantes do estudo foi a comparação entre insetos que vivem em altitudes elevadas e aqueles encontrados em florestas tropicais de baixa altitude, como na Amazônia.

Os resultados indicam que espécies de regiões montanhosas conseguem ajustar temporariamente sua tolerância ao calor. Isso ocorre porque esses ambientes naturalmente apresentam maior variação de temperatura.

Insetos amazônicos enfrentam risco crescente de estresse térmico (Imagem: Getty Images via Canva)
Insetos amazônicos enfrentam risco crescente de estresse térmico (Imagem: Getty Images via Canva)

Por outro lado, muitos insetos das áreas tropicais baixas vivem em ambientes climaticamente estáveis. Como consequência, eles evoluíram com faixas térmicas muito estreitas, o que reduz sua capacidade de adaptação diante do aquecimento global. Esse padrão torna a biodiversidade tropical especialmente sensível às mudanças climáticas.

O papel das proteínas na resistência ao calor

Outro achado importante do estudo envolve a estrutura molecular dos insetos. Os pesquisadores analisaram dados genéticos de diversas espécies e descobriram que a tolerância ao calor está associada à estabilidade das proteínas celulares.

Essas proteínas funcionam adequadamente apenas dentro de determinados intervalos de temperatura. Quando o calor ultrapassa esses limites, processos metabólicos essenciais podem falhar.

Além disso, características relacionadas à tolerância térmica parecem estar profundamente enraizadas na história evolutiva dos insetos, o que significa que mudanças rápidas de adaptação são improváveis.

O que pode acontecer com os ecossistemas amazônicos

Os insetos representam cerca de 70% das espécies animais conhecidas, e grande parte dessa diversidade vive em regiões tropicais. Por isso, qualquer alteração significativa em suas populações pode provocar efeitos em cascata nos ecossistemas.

Caso o aumento da temperatura global continue no ritmo atual, especialistas alertam para possíveis consequências, como:

  • Redução da polinização natural;
  • Alterações na decomposição de matéria orgânica;
  • Desequilíbrios nas cadeias alimentares;
  • Impactos indiretos na agricultura e na biodiversidade.

Assim, compreender os limites térmicos dessas espécies torna-se essencial para prever como a biodiversidade tropical responderá às mudanças climáticas nas próximas décadas.

Escrito por Leandro C. Sinis, Biólogo (UFRJ) para o Fala Ciência.

Leandro C. Sinis é biólogo formado pela UFRJ e divulgador científico. Com experiência em pesquisa acadêmica, é coautor de um estudo sobre neuroproteção publicado no Journal of Biological Chemistry (DOI: 10.1074/jbc.m117.807180). Sua missão no Fala Ciência é traduzir descobertas complexas em conhecimento acessível e seguro para todos. Ver perfil no LinkedIn | Ver Currículo Lattes