Ansiedade e insônia podem enfraquecer o sistema imunológico, revela estudo

Estresse altera células de defesa em mulheres jovens. (Foto: Aflo via Canva)
Estresse altera células de defesa em mulheres jovens. (Foto: Aflo via Canva)

Ansiedade persistente e noites mal dormidas são frequentemente tratadas como problemas restritos ao bem-estar emocional. No entanto, evidências científicas recentes indicam que esses fatores exercem efeitos profundos e silenciosos sobre o sistema imunológico, comprometendo a capacidade do organismo de se defender contra infecções, inflamações e doenças crônicas.

Uma pesquisa publicada em 9 de dezembro de 2025, na revista Frontiers in Immunology, seção Biologia das Células NK e Linfoides Inatas, trouxe novos dados sobre essa conexão ao analisar o impacto da insônia e da ansiedade nas células natural killer (NK) em mulheres jovens adultas. 

O estudo, intitulado “Insomnia and anxiety: exploring their hidden effect on natural killer cells in young adult women”, foi conduzido por Renad M. Alhamawi (DOI: 10.3389/fimmu.2025.1698155).

Células NK: a linha de frente da imunidade

As células NK (Natural Killer) desempenham papel central na imunidade inata. Elas são responsáveis por identificar e eliminar rapidamente células infectadas por vírus ou com alterações tumorais, além de coordenar respostas imunes por meio da liberação de citocinas.

Essas células se dividem funcionalmente em dois grupos principais:

  • Células NK citotóxicas, que destroem células doentes
  • Células NK imunorreguladoras, que modulam a resposta de outras células imunes

A redução de qualquer um desses subtipos pode resultar em resposta imunológica menos eficiente.

O que o estudo observou nas mulheres jovens

O estudo avaliou 60 mulheres jovens adultas, com idades entre 17 e 23 anos, utilizando questionários padronizados de saúde mental e sono, além de análises laboratoriais de sangue. Os resultados revelaram associações consistentes entre ansiedade, privação de sono e diminuição das células NK circulantes.

Entre os principais achados:

  • Mulheres com sintomas de ansiedade apresentaram redução média de 38% no número total de células NK
  • Participantes com insônia relataram queda de cerca de 40% nas células NK imunorreguladoras
  • A ansiedade esteve associada à redução simultânea dos dois subtipos de células NK

Esses dados sugerem que tanto a saúde emocional quanto a qualidade do sono influenciam diretamente a vigilância imunológica.

O papel do estresse fisiológico

Embora o estudo seja observacional, os resultados apontam para um mecanismo biológico plausível. A ansiedade crônica está associada ao aumento sustentado do cortisol, um hormônio do estresse com efeito imunossupressor conhecido. Esse hormônio pode interferir na produção, sobrevivência ou distribuição das células NK na circulação.

Além disso, a privação de sono pode alterar ritmos biológicos essenciais à renovação celular, agravando esse efeito.

Limitações e próximos passos

O estudo destaca limitações importantes, como o tamanho da amostra e a concentração em um grupo específico de mulheres jovens. Ainda assim, ele estabelece uma base sólida para futuras investigações longitudinais que avaliem:

  • A progressão dessas alterações ao longo do tempo
  • O impacto direto na incidência de infecções e doenças crônicas
  • Diferenças entre sexos, faixas etárias e contextos populacionais

Os achados reforçam que cuidar do sono e da saúde mental não é apenas uma questão psicológica, mas também uma estratégia fundamental para preservar a imunidade. Ansiedade e insônia podem comprometer silenciosamente defesas celulares essenciais, aumentando a vulnerabilidade do organismo.

Rafaela Lucena é farmacêutica, formada pela UNIG, e divulgadora científica. Com foco em saúde e bem-estar, trabalha para levar informação confiável e acessível ao público de forma clara e responsável.